A abrir

O Nosso Banco

Imaginem que fechamos numa sala Miguel Tiago, o aguerrido deputado do PCP, e Vítor Bento, o economista conselheiro de Cavaco Silva. Qual é o resultado? Faísca? Não, por estes dias, o que poderíamos ouvir era um coro harmonioso e o tema não seria a paz no Mundo, onde até poderiam estar em desacordo. O tema que une estes dois espíritos divergentes é a nacionalização do Novo Banco, ideia que um lançou (Vítor Bento) e o outro (Miguel Tiago) inscreveu na agenda política com o beneplácito do PS, que veio dizer que esta hipótese não é coisa assim tão descabida.

Só mesmo em situações muito graves poderiam pôr-se de acordo duas pessoas com perspetivas do Mundo tão diferentes e a situação do Novo Banco, em particular, e da Banca portuguesa, em geral, deve ser inscrita nesse capítulo. A primeira situação grave prende-se com os números que transformaram o banco que "não tinha custos para os contribuintes" na instituição que ao segundo ano, depois de o Estado lhe ter injetado 4,9 mil milhões de euros, ainda apresenta prejuízos de 980 milhões e se prepara para despedir mil trabalhadores. A ideia de o vender sem que ainda tenhamos de pagar é cada vez mais uma ficção.

A segunda situação é que, com a possível venda do Novo Banco, tudo aponta para que só reste um banco sob controlo nacional, a Caixa Geral de Depósitos. Bem me podem vir com a história de que o dinheiro não tem pátria e que tanto faz que o gestor seja espanhol ou português. Treta. O Norte é uma região enfraquecida desde que o Porto perdeu todos os seus bancos após as nacionalizações e nunca será a mesma coisa uma decisão de crédito tomada em Lisboa, em Madrid ou em Luanda.

Ao menos Vítor Bento mantém a coerência de quem defendeu no Compromisso Portugal a manutenção dos centros de decisão nacional, mesmo que muitos dos seus companheiros de então, mais empenhados nas privatizações que nos iam libertar do Estado, estejam hoje em silêncio. Privatizações aliás que, um pouco por toda a Europa, como esta semana revelava um estudo, tiveram pobres resultados económicos e serviram para transferir a propriedade de um Estado para outros estados.

Por isso, depois de 11 mil milhões de euros injetados pelo nosso Estado em bancos com dificuldades financeiras, temos o direito de exigir que todas as alternativas sejam ponderadas para percebermos como podemos minorar custos e manter alguma dignidade em todo este esforço.