Opinião

O que acontece em Atenas não fica em Atenas

O que acontece em Atenas não fica em Atenas

Os gregos falaram, a Europa escutou. Quem nos diria que um dia estaríamos à espera dos resultados das eleições gregas, podendo seguir nos três canais noticiosos especiais informativos? Ontem fomos europeus para seguir a resposta dos gregos à política de austeridade que, não por acaso, começou com a Grécia e com ela pode ter o princípio do fim.

O que escutamos foi a voz clara de quem, como escreveu ontem o enviado do JN, está molhado e por isso "não tem medo da chuva". Uma voz que disse que os números da macroeconomia são pequenos para aprisionar a soberania popular. A democracia falou e colocou no Poder um partido que se opõe, pela esquerda, à política seguida, com maior ou menor entusiasmo, por todos os governos europeus. A política grega deu um mortal e reduziu os partidos do "arco da governação", que somavam há bem pouco tempo percentagens na ordem dos 80%, a pouco mais de 30%.

"A era da troika acabou", disse Alexis Tsipras, no seu discurso de vitória, e soou bem mais verdadeiro que a declaração da nossa maioria quando saudou o fim do memorando da troika. Claro que esta também é uma verdade sujeita a confirmação, mas as grandes capitais europeias não podem deixar de ler estes sinais que, em alguns casos, interpelam os seus próprios cenários políticos. O que aconteceu em Atenas não ficará certamente por Atenas

A partir de hoje, começaremos a saber se a vitória dos radicais gregos é o desagregar do sonho europeu como muitos vaticinaram ou, pelo contrário, é o retomar dos princípios de diálogo, solidariedade e coesão basilares do espaço comunitário. Não será fácil encontrar a bissetriz entre a necessidade de manter princípios de rigor orçamental e uma solução para o crescimento das economias, que devolvam esperança a quem só tem a pobreza pela frente, mas é urgente começar por algum lado.

O BCE fez alguma coisa por isso, esta semana, e a proposta do Syriza de realizar uma conferência europeia para a reestruturação da dívida não é uma solução tão inédita que não mereça que governos como o português olhem para ela a tempo de se colocarem no lado certo.

Uma reestruturação semelhante já aconteceu em 1956, em Londres, quando 26 países, entre eles a Grécia, acordaram um perdão de cerca de 50% da dívida alemã.

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