Opinião

Uma revolução a comemorar

Uma revolução a comemorar

Os 100 anos da revolução russa que agora se cumprem são um excelente pretexto para várias linhas de reflexão. Para muitos, felizmente a maioria, é altura para olhar com horror o desastre que significou a tentativa de instaurar uma sociedade sem classes, sem explorados nem exploradores, superiormente tutelada por um partido único. Para outros, poucos, muito poucos, é hora de enaltecer "a Revolução de Outubro como a realização mais avançada no processo de libertação da Humanidade de todas as formas de exploração e opressão", como o fez o líder do PCP, Jerónimo de Sousa.

Mas esta pode ser também a hora de perceber que, apesar do pesadelo, havia no enunciado do sonho pressupostos que nos interpelam e não nos devem impelir somente para um exercício retrospetivo, mas a um questionamento do presente. Ou, dito de outra forma, para não arrepiar tantos espíritos, se calhar o facto de o muro ter caído, fez ontem 28 anos, não nos deveria ter levado tanto para um outro lado.

Um das mudanças que as últimas décadas têm aprofundado é a da prevalência da economia de mercado sobre tudo o resto, como se fosse uma verdade estabelecida. É o poder económico o rei do espaço público, não só na relação de superioridade com a política, sobrepondo-se à ideologia, mas também na grelha de avaliação que aplicamos para quase tudo, nomeadamente os serviços públicos. Tendemos ou não a avaliar um hospital mais pelas contas que apresenta ou pela sua "produtividade" do que pela qualidade dos seus serviços?

Como questionava o ensaísta Tony Judt: "Na nossa nova idolatria da produtividade e do mercado não invertemos simplesmente a crença de uma geração anterior? É que não há nada mais ideológico do que a premissa de que todos os assuntos e políticas privados e públicos têm de estar relacionados com a economia globalizante, com as suas leis inevitáveis e com as suas exigências insaciáveis".

Talvez o primeiro passo para um pensamento que melhor defenda o bem público seja o de tomarmos consciência que nos livramos de um totalitarismo, mas vivemos, com todas as cambiantes, um outro. E num momento em que em Portugal até PSD e CDS defendem a necessidade de investir mais nos serviços públicos, que a Esquerda está no poder, que os incêndios reafirmaram a necessidade de garantir a qualidade das estruturas do Estado, que os BES e os CTT desta vida nos mostram que não é por ser privado que se é bom, talvez seja altura de chegar a um consenso sobre o que deve ser de todos nós e aquilo que fica para a economia. Esta seria uma revolução a comemorar.

* SUBDIRETOR

ver mais vídeos