Opinião

Mapa do descontentamento

Mapa do descontentamento

Os mapas são objetos fabulosos. Não tanto estes que agora temos em qualquer telemóvel (a utilidade digital não é grande amiga da ilusão), mas aqueles de papel que folheamos num atlas ou aqueles grandes, das estradas, que nos obrigam a uma ginástica de geometria para tentar dobrar. Ali à nossa frente está um mundo traduzido em pequenos sinais gráficos que podemos percorrer com a ponta do dedo. Pontos para cidades, que correspondem a milhares de pessoas, curvas para montanhas, que escondem maravilhas da Natureza, traços para estradas que nos podem levar para novos destinos...

Os mapas são roteiros do futuro onde podemos planear para onde vamos e onde queremos estar. Os mapas das companhias aéreas com as suas linhas vermelhas retilíneas, privilégio de quem pode viajar sempre em linha reta, e com a sua grande amplitude não são exceção. Sem dúvida os novos proprietários da TAP olharam para eles para perceber o que iam fazer com a companhia.

Lisboa tinha a lógica de um nó, onde se juntam muitas linhas vermelhas, dessas que atravessam mares e continentes. Faro e Porto ficavam como pequenos pontos, ligados a esse ponto maior, na lógica de quem olha para o mapa-mundo e para quem o destino dos residentes nesses pequenos pontos pouco importa. Com o mesmo olhar, devem ter detetado a oportunidade que era a Galiza e onde antes o aeroporto do Porto tinha conseguido ir buscar passageiros de autocarro, a TAP simplificou com preços competitivos e foi buscá-los de avião.

As cada vez mais elevadas taxas da privatizada ANA devem ter ajudado a tomar uma decisão que privilegia a Galiza em detrimento do Norte do país. Imperou a lógica empresarial que já tinha presidido ao corte de ligações aéreas internacionais a partir do Sá Carneiro. É uma forma justificável de ler o mapa.

Por outro lado, sem justificação nenhuma, verdadeiramente aos papéis, fica um Governo que em início de mandato decidiu que a TAP deveria ser 50% nacional. Esqueceu-se foi de avisar que esses 50% só davam direito a metade do mapa, aquela que fica do Mondego para baixo. De fora, ficaram os patetas que pagam impostos como os outros, que trabalham na zona mais exportadora do país, mas que têm de ir apanhar um avião a Vigo se quiserem ter um desconto. O Governo pode gostar da demagogia de ter 50% de uma companhia sem ter direito a determinar nada de relevante. Nós, os de cá de cima, dispensamos a ilusão e só pedimos que vendam os nossos 25%.

* SUBDIRETOR

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