Opinião

O grande vazio

Quando liguei o rádio, não consegui perceber qual o tema do programa com a participação telefónica do público. Violência doméstica? Saúde mental? Maus-tratos a crianças? As falhas do Estado perante situações de risco? O mote era, como advinham, o drama de Caxias, a morte de uma criança e o desaparecimento de outra nas águas do Tejo.

A celeridade mediática tem destas coisas: tentarmos responder antes de saber a pergunta que temos de fazer ou de elaborar manchetes, como aconteceu a um jornal de Lisboa que num dia titulava que as crianças tinham sido mortas por falha do Estado e no dia seguinte, com a mesma projeção, dizia que elas tinham sido mortas pela mãe.

O que sabemos é que, quatro dias depois, ainda estamos longe de perceber todos os contornos desta tragédia familiar, mas já temos dados suficientes para perceber o drama coletivo que ela representa. É que o que está em causa é o nosso sistema para acorrer a situações de risco, para proteger os mais frágeis, para socorrer as vítimas. O que fica em evidência é que aquilo com que se mede a saúde de uma sociedade, a sua capacidade de proteger os desprotegidos, sai muito maltratada.

Tribunal de Família e Menores, PSP, Ministério Público, Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, Associação de Apoio à Vítima... Cada uma destas instituições interveio em determinado momento deste processo e, mesmo assim, não foi possível impedir que o elo mais fraco fosse quebrado. Não sei se houve falta de perceção, se a legislação não é adequada, se falta pessoal, mas sei que neste caso, três meses depois das denúncias, as medidas de proteção das crianças estavam por aplicar pela Justiça.

Por isso, todos temos o direito de nos interrogar se entre tanta gente não falta o essencial: um sentido de urgência, de imperiosa necessidade de atuação sempre que situações deste tipo envolvam crianças. Por isso temos o dever de exigir que Governo e Parlamento olhem para este caso como um sintoma grave, façam um diagnóstico célere e implementem as mudanças necessárias.

Há uns meses, a imagem de uma criança síria nas areias de uma praia turca comoveu o Mundo. Nós não temos essa iconografia demolidora para estampar nas páginas do jornal e exigir ação. O que temos é enorme vazio do corpo de Samira desaparecido nas águas no Tejo. É a esse enorme vazio, metáfora da nossa inação coletiva, que temos de responder com urgência.

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