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O Mundo ao contrário

"Seguir o protecionismo é como fecharmo-nos num quarto escuro onde o vento e a chuva podem ficar de fora, mas onde também não há luz e ar". A frase em defesa da globalização, proferida no púlpito do Fórum de Davos, crismado à Esquerda como uma "reunião de ricos e famosos", não foi proferida por nenhum liberal das novas tecnologias com queda para a poesia, mas pelo presidente da monolítica China, Xi Jinping.

O recado tinha um destinatário, o homem que hoje toma posse como 45.º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Que seja o líder de um país que até à década de 1980 era extremamente fechado a tecer loas a um mundo aberto, dá para perceber bem como temos hoje de encarar um mundo que parece estar de pernas para o ar.

Nesse mundo também encaixa na perfeição a frase que ouvi de um músico norte-americano num concerto em Espinho, na noite de quarta-feira: "Falta pouco mais de 24 horas para a destruição total". Claro que ele se riu e que o público se juntou ao coro, mas na verdade este exorcismo pela gargalhada não nos vai servir de muito, até porque o Mundo a que nos habituamos está mesmo a tocar a finados.

Com piadas à mistura, podemos continuar a jogar o jogo do empurra, e tal como acreditamos que depois de eleito Donald Trump mudaria a sua postura e as suas posições, crer que depois de tomar posse ele arrepie caminho e mostre mais razoabilidade. Podemos fiar-nos que a realidade, a economia ou mesmo os seus parceiros republicanos calem o twitter presidencial e o obriguem a uma pose de Estado mais consentânea com o cargo poderoso que ocupa. Mas temos de o fazer por pura fé, porque todos os sinais nos dizem o contrário.

A recusa em abandonar as suas propostas eleitorais radicais, as escolhas que fez para a sua administração, a pose na única conferência de Imprensa que deu, a hostilidade em relação à União Europeia e à NATO e a amizade com Putin mostram que estamos a assistir ao nascimento de um Governo americano intolerante, isolacionista e com toques ditatoriais.

Pelo papel essencial, genericamente virtuoso, que os Estados Unidos têm tido no Mundo, nas diferentes frentes, durante o último século é muito difícil encararmos este potencial Mundo ao contrário. Mas já começa a ser tempo de o fazer, tomando por real o que achamos que é do domínio da loucura, preparando-nos, e aos nossos governantes, por lutar por princípios que ainda deveriam ser os da "terra da liberdade", mas parece que já não são.

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