Opinião

O silêncio dos inocentes

O silêncio dos inocentes

Antes de me começarem a desancar, quero fazer uma declaração de empenho: tenho dois cães, um gato, dois porquinhos-da-índia e, até à semana passada, tinha um peixinho vermelho, mas uma interação com o gato diminuiu a presença do mundo animal lá em casa.

Dito isto, é com um misto de pesar e espanto que vejo milhares de concidadãos empenharem-se até à irracionalidade em todos os temas que dizem respeito aos direitos dos animais. Não porque os animais não mereçam a nossa atenção e proteção, mas porque há muitos outros assuntos que merecem e não recebem o mesmo sobressalto por parte de quem está sempre disponível para erguer estátuas a cães ou mudar-lhes o nome para Mandela.

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Eu até consigo ter empatia pela dor do dono do Simba (o último de uma longa galeria de "heróis") e, por essa razão, aceitar que ele ache que o cão dele deve ser "uma bandeira nacional contra os maus-tratos aos animais", embora me pareça mais adequado que fosse contra os vizinhos cretinos. Mas temos de sentir as mesmas frases, o mesmo empenho, nas redes sociais, no debate público com, por exemplo, a última vítima de violência doméstica.

Dir-me-ão que não são possíveis comparações e que isto é tudo fenómeno das redes sociais e das causas instantâneas. Mas num país em que há um partido dos animais e tanta gente disponível para lutar pelos seus direitos, eu respondo que, em tudo o resto, por comparação, nos parece faltar uma sociedade civil mais ativa e esclarecida.

E não me venham com a conversa de que os animais são inocentes, não têm voz e por essa razão há que falar por eles. Também as crianças são inocentes e sem voz. Num país onde, em 2013, a taxa de risco de pobreza infantil era de 25,6%, só posso constatar que falta um enorme coro de protesto. Façam lá "like" a isto.

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