Opinião

Palavras que ficam

Cavaco era presidente e Costa dava o seu primeiro passo como primeiro-ministro. Tonitruante, o presidente avisava: "No momento histórico que atravessamos, é uma ilusão pensar que um país como Portugal pode prescindir da confiança dos mercados financeiros e dos investidores externos e, bem assim, do apoio de instituições internacionais".

Os portugueses sabiam bem do que ele falava. Atrás estavam quatro anos com um olho na tutela da troika e outro nessa entidade fantasmagórica chamada "mercados". A maioria que Cavaco continuava a representar fartara-se de avisar que qualquer cenário mais radical poderia despertar "a besta". Basta lembrar o que dizia sobre a reestruturação da dívida. "Se alguém lá fora levasse a sério essa conversa, estaríamos a pensar como iríamos deitar três anos de sacrifício fora".

É por isso que é impossível não olhar para Passos Coelho como figura de uma tragédia na qual ele próprio se foi enredando. O cenário radical, de uma aliança à Esquerda, veio e não foram certamente o PS, Bloco ou PCP que colocaram a fasquia do seu sucesso no beneplácito dos mercados ou das agências de rating. Como não foram eles que inventaram um relógio para marcar esse momento simbólico em que a troika deixava a nossa companhia, apesar de nós continuarmos no lixo. E não foi certamente "a Esquerda radical" que anunciou a vinda do demo.

Por isso, quando a Standard & Poor"s retira Portugal do "lixo" ou quando, como o fez esta semana, o país emite 1750 milhões de euros em dívida a seis e 12 meses, com taxas negativas recorde, ou seja, quando a Esquerda bate a Direita na sua própria lógica, a presença política de Passos Coelho, como ícone desses tempos de ameaça constante, é uma presença em sofrimento. Portas entendeu isso imediatamente e saiu. Passos preferiu apostar tudo na tragédia nacional que a irresponsabilidade da Esquerda traria e perdeu.

Bem pode o presidente da República, com justiça, recordar que sem o sacrifício dos portugueses não teríamos chegado aqui e lembrar que a política de contenção do anterior Governo também é responsável pelos resultados de hoje. Mas quem se lembrará hoje que a famosa "austeridade" começou com os PEC de Sócrates. Para ele, muitos portugueses só terão uma palavra: "bancarrota". Como para Passos ficará a "austeridade". E certamente para Costa não ficará "lixo".

*SUBDIRETOR

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