A abrir

Tentar mudar

Não sei se é preciso atestado para definir a bipolaridade do nosso comportamento coletivo, mas a observação de muitos anos ajudou-me a cimentar esse diagnóstico e as últimas semanas não vieram contrariar a ideia de um país que passa do oito ao oitenta num piscar de olhos.

Até às legislativas, e o resultado não foi claramente o contrário disso, havia uma multidão que acreditava nos benefícios da austeridade e na necessidade de Portugal prosseguir uma política com um olho na disciplina orçamental e outro nos mercados. Mesmo que em ano de eleições trocássemos um pouco os olhos com a recuperação económica, que levantava voo, mas que afinal deu zero de devolução da sobretaxa do IRS, a estratégia do "aguenta, aguenta" tinha muitos seguidores.

Depois da maioria de Esquerda se compor no Parlamento, passamos para as vantagens do estímulo ao consumo e praticamente calaram-se os arautos da austeridade. Pelo menos durante as eleições presidenciais, não era possível encontrar um candidato que defendesse a atuação do anterior Governo e mesmo o candidato da Direita fugiu sempre dessa proximidade.

Acontece que o Mundo não mudou só porque mudamos de primeiro-ministro, e se ontem eram necessárias medidas de austeridade, hoje continuamos a mover-nos num quadro que mantém a exigência de rigor. De alguma forma foi isso que a União Europeia nos veio lembrar. O "aluno exemplar" pode ter passado a "criança rebelde", mas o professor continua a ser o mesmo.

Quer isto dizer que António Costa não pode tentar um exercício orçamental mais ousado, mais de acordo com as suas promessas eleitorais e com o quadro político interno? Não penso assim. Se ontem acusávamos Passos Coelho de nem tentar forçar o espartilho comunitário, não podemos hoje, ao primeiro sinal, voltar à nossa bipolaridade e rejeitar António Costa de, pelo menos, tentar fazer que faz.

É um exercício arriscado, que não o isenta de ter os devidos cuidados com a solidez do documento que apresenta e com as leituras, nomeadamente externas, que esta ousadia poderá ter. Mas outros países tentaram e conseguiram alguma flexibilização. Não estaremos na melhor posição para um agressivo braço de ferro com Bruxelas, nem parece que seja essa a vontade do Governo que já mostrou disposição para alterações que, por sua vez, poderão acarretar riscos políticos internos. Mas não se consegue mudar sem tentar e parece ter chegado o momento para António Costa fazer valer todas as suas anunciadas qualidades de negociador.

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