Opinião

10 027

10 027. O número foi repetido à exaustão em notícias e análises, mas vale a pena fixá-lo, repeti-lo, para que não nos deixemos anestesiar na rotina de uma pandemia que se arrasta sem fim à vista.

O recorde no valor de novas infeções diárias chega precisamente quando se atingem picos de afluência nas urgências, agravando a pressão sobre os serviços de saúde. Pior, chega quando ainda se aguarda um retrato detalhado da situação epidemiológica, que só deveremos conhecer na próxima semana.

Era esperado que a abertura permitida nos dias de Natal tivesse impacto. Ainda o ano estava a virar a página e já se sentiam oscilações nos relatórios diários a fazer adivinhar o que aí vinha. Ainda assim, a reunião de peritos foi deixada para dia 12. Tarde para perceber ao pormenor o que estamos a viver. Mesmo que o Governo se antecipe e aprove desde já medidas mais duras, estará a fazê-lo sem o rigor de uma leitura fina essencial para fundamentar as decisões políticas.

Habituámo-nos às disparidades de números locais ou à demora dos relatórios oficiais em traduzirem as oscilações por concelho - a cada segunda-feira, oferecem-nos um retrato que já é servido com oito dias de atraso. Habituámo-nos a um estado de emergência constante e com prolongada renovação de medidas, que acaba por ter um efeito de adormecimento. Sabemos ainda, todos, exatamente as restrições em vigor?

A luz ao fundo do túnel, expressão tantas vezes repetida para traduzir a esperança trazida pelo início da vacinação, poderá ter induzido uma falsa sensação de conforto. A maratona está longe do fim e é marcada pela incerteza. Desconhecemos, em Portugal e na Europa, quase tudo: a que ritmo chegarão as vacinas (e decorrerão novas aprovações de outros laboratórios), que percentagem de população teremos de inocular para atingir a imunidade de grupo, quanto tempo durará a proteção conferida pela vacina.

Não é ainda o momento de baixar a guarda. Ou de demorar a avaliar a situação e a aplicar as devidas medidas. É o momento de detalhar diagnósticos e comunicar com clareza. Explicar exatamente onde estamos. E o que fazemos para evitar que os números continuem a galopar. E temos que ser rápidos. Fechar o país por incapacidade de antecipar, e de gerir com base em dados fiáveis, é voltar a morrer da cura. Mesmo que a principal responsabilidade seja nossa, por termos sido irresponsáveis.

Diretor-Geral Editorial

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