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100 anos de divisões

A decisão política de Trump de reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel, com a consequente mudança da embaixada de Telavive para a Cidade Santa, é um rude golpe nos frágeis e sempre curtos momentos de relativa paz na região. E tem desde logo duas leituras.

Primeira. O ressurgimento da causa palestiniana como motor da fúria dos movimentos radicais e a união do mundo árabe contra o Ocidente, num momento em que o Ocidente parecia ter conseguido limitar os extremismos.

Nos últimos oito anos de luta contra a al-Qaeda, primeiro, e contra o autodenominado Estado Islâmico, depois, Israel pôde prosseguir a sua política de construção de colonatos sem que fosse audível o clamor internacional, ou do próprio Médio Oriente. E mesmo de Jerusalém, cruzamento do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, cidade do Templo de Salomão, do julgamento e crucificação de Jesus e da Esplanada das Mesquitas, a tensão foi sempre gerida. Com equilíbrios instáveis, mas gerida.

Segunda leitura. A total inoperância e incapacidade das Nações Unidas para não só construir novas pontes, como tentar reforçar as poucas que existem. É um fardo pesado para o secretário-geral, que tinha feito da tentativa de resolução do conflito israelo-palestiniano uma das principais causas do seu mandato.

Na agenda de António Guterres já estavam as críticas violentas de Trump ao funcionamento da ONU, apesar dos elogios envenenados que lhe eram dirigidos. E a intenção dos Estados Unidos de sair da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), acompanhados por Israel, que de resto já tinha deixado de financiar por ter sido aprovada a entrada da Autoridade Palestiniana.

Não surpreende a decisão do presidente norte-americano. Corresponde a uma visão do Mundo, enunciada inúmeras vezes durante a campanha eleitoral de 2016, consolida o seu eleitorado e dispersa a pressão a que internamente está sujeito, nomeadamente pelas relações obscuras com a Rússia.

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O que surpreende é a inabilidade das Nações Unidas e da Europa para antecipar o que era previsível, num momento de aproximação entre os moderados da Autoridade Palestiniana e os radicais do Hamas.

A decisão de Trump, que há de ter a anuência dos parceiros mais seguidistas, pisa um risco que os seus antecessores não ousaram. E pisa quando se assinalam os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial, que os aliados venceram, com a ajuda dos árabes, aos alemães e ao Império Otomano, riscando o Médio Oriente a régua e a esquadro. Continuamos sem aprender nada.

DIRETOR-EXECUTIVO

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