Opinião

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Deixamos de contar os infetados quando nos doem os mortos e o medo pelos vivos. Quando os números são mais do que os rostos e os nomes que conseguimos memorizar, quando os números nos sufocam pela ausência de nomes e rostos, o que não nos podemos permitir é banalizar os dias à espera de números piores, que somam a outros tantos nomes, para agir.

E há, nestes dias de semiconfinamento, enquanto não chega um confinamento geral, uma única forma de atuar. Restringir os contactos sociais, protegermo-nos ao máximo. É o mínimo que podemos fazer. Por nós. Pelos outros. Pelos números. Pelos nomes. Pelos rostos.

É no meio da infâmia das horas sem destino que somos sobretudo obrigados a preservar a nossa humanidade e o modo de vida corresponsável das sociedades democráticas. Este é o momento em que ficamos piores, e não melhores, como apregoámos aos ventos há um ano, fechados em casa, para depressa nos esquecermos. É o momento em que somos mais intolerantes, mais mesquinhos, mais tomados pela anomia, mais sujeitos à manipulação voraz dos outros.

As eleições deste domingo são um desafio a todos os medos. Dos aglomerados. Dos contágios. E não serão uma festa da Democracia, quando o país está coberto de luto. Mas representam um momento único em que todos contamos, como no combate à pandemia.

Mais do que o jogo de saber qual a votação de Marcelo Rebelo de Sousa, a disputa do segundo lugar e do enfraquecimento ou não de André Ventura, da relevância de Ana Gomes dentro do PS e da deslocação de votos do BE, da fatura que pagarão os bloquistas, de como João Ferreira conseguirá ajudar a manter o PCP irredutível, se os Liberais com Tiago Mayan fizeram passar a sua mensagem, ou com quantas pedras se fez a candidatura de Vitorino Silva, mais relevante do que tudo isso, escrevíamos, está a capacidade de os portugueses não se deixarem subjugar ao medo. Não se absterem. Nem de votar.

É isso que faz de nós seres sociais. Mulheres. E homens.

Diretor-Geral Editorial

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