Opinião

Assinar os papéis

Coloquem-se no lugar de uma família típica portuguesa. De repente, no meio de uma pandemia sanitária que mal dá sinais de abrandar, de uma crise económica da qual só ainda adivinhamos a dimensão, cai-lhes na mesa uma crise política.

Como se não fosse nada, no momento em que deveria ser passado o primeiro "cheque" da União Europeia e depois da habitual coreografia entre o Governo e os seus parceiros de Esquerda sobre a aprovação ou o chumbo do Orçamento do Estado.

O que mudou? A perceção. E os factos. Bloco de Esquerda e PCP perceberam que o apoio parlamentar dos últimos anos só produziu um vencedor: António Costa. De resto, foi sempre a perder. Em votos, em poder local, sobretudo o PCP que viu a sua habitual influência de nicho territorial e sociológico diminuir drasticamente, e na capacidade de mobilização, cuja colagem às políticas do Governo deixou órfãos os setores da sociedade que mais descem às ruas em protesto.

Há um último motivo, assumido por Jerónimo de Sousa. A parceria já tinha produzido a reversão de algumas medidas da "troika" e era o tempo de passar às políticas de fundo. Só que o tempo político pertencia a António Costa e resulta claro que uma coisa é governar com o apoio de uma parte da Esquerda, outra ser governado por essa parte da Esquerda. E, claro, faltava o compromisso assinado, que Marcelo Rebelo de Sousa não exigiu.

O prato servido pela Direita não está mais bem apurado, com PSD e CDS embrulhados numa guerra interna que revela o pior de dois partidos fundadores e construtores da Democracia, enlameando-se em iniciativas pouco democráticas.

O presidente da República corre o risco, no próximo ano, de ter em mãos um Parlamento mais fragmentado do que hoje. É por isso tão importante o tempo político que hoje vai usar para marcar eleições. E preparar os papéis para serem assinados, para não vivermos de crise em crise. Ou será a ele que os portugueses responsabilizarão.

*Diretor-Geral Editorial

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