Opinião

Calçar a Imprensa

A ideia de um governo subsidiar a Comunicação Social causa inevitável desconfiança. A dependência económica é meio caminho andado para a perda de isenção e para abusos ou interferências políticas que minem a confiança dos cidadãos em quem os informa.

O uso da palavra para descrever o que se está a passar no país é, por isso, inquietante: induz os leitores em erro e cria uma nuvem de confusão em relação ao que está em causa.

Os 15 milhões de que tanto se tem falado, cerca de 11 para os média de dimensão nacional, são na verdade uma compra de publicidade institucional paga antecipadamente, o grosso para as televisões. A manter-se o calendário estimado para que o processo fique concluído e possam avançar as compras em causa, as empresas receberão em junho ou julho publicidade a inserir durante os meses seguintes. Publicidade institucional que a lei prevê e que nem sempre é cumprida no que diz respeito a situações de publicitação obrigatória.

Com quebras de publicidade que chegaram, nalguns casos, a rondar os 90%, com quiosques fechados e alterações nos padrões de consumo, com os jornais a sofrerem da ignorância de muitas autoridades locais de saúde que acham que o vírus se transmite pelo papel, é inquestionável o agravamento de uma crise no setor, que já existia antes da pandemia. E discutir a independência dos média com seriedade pressupõe reconhecer que ela não é indissociável da saúde financeira das empresas. Um jornal ou uma rádio desesperadas por sobreviver serão sempre mais permeáveis a influências ou negócios pouco claros.

O Jornal de Notícias usa na lapela o orgulho de nunca ter precisado de mais do que os seus leitores e, por via disso, dos seus anunciantes. Não inventamos números ou mais leitores do que os portugueses, mesmo somando bebés nascidos e por nascer, para sermos líderes, como outros fazem. Não temos outra agenda que não a da defesa dos leitores. De todos.

O grupo a que o JN pertence receberá antecipadamente pouco mais de um milhão de euros de um Estado que tinha desde maio de 2016 uma dívida de quase dois milhões de euros em créditos fiscais. Liquidou metade desse valor neste mês. E quantas empresas não sofrem com um Estado mau pagador...

Entende-se que haja mistificações e ruído criado em torno de uma matéria delicada, com muitos pontos eventualmente mal explicados ou controversos. Mas esta é sobretudo uma oportunidade para refletir sobre a importância da informação credível e rigorosa e para a missão que o jornalismo cumpre numa sociedade democrática. A informação não vale o mesmo que um par de sapatos. Debater a sustentabilidade dos média, a longo prazo, é uma preocupação que diz respeito a todos.

*Diretor

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