Opinião

Capítulos ocultos

Não. O capítulo dos fogos não está fechado. Como não pode ficar fechado o da legionela. Como não pode ficar fechado nenhum capítulo de sofrimento e de luto até que seja claro, sem margem para dúvidas, o que se passou. Os familiares das vítimas têm direito a isso. O país precisa disso. Para voltar a confiar no Estado. Nas instituições do Estado.

Se parece ainda cedo para perceber com detalhe o que aconteceu no S. Francisco Xavier, em Lisboa, onde já se contam quatro mortes, mais 44 infetados, muitos dos quais a saberem que tinham a bactéria só depois de saírem do hospital, o mesmo não se pode dizer das tragédias de Pedrógão Grande e do fim de semana negro de 15 e 16 de outubro.

Mas o melhor é ler, ou ouvir, a narração das "falhas arrepiantes" contadas por Xavier Viegas, coordenador do estudo pedido pelo Governo sobre os incêndios de Pedrógão e agora a começar a trabalhar nos fogos de outubro.

Há, conta ele, um capítulo inteiro que foi escondido, sonegado, não divulgado, como queiram, pelo Ministério da Administração Interna que conta histórias de gente que morreu. Durante e depois. Porque o socorro não foi eficaz. Nem durante, nem depois dos fogos. "Horas depois, havia pessoas feridas sem que fosse alguém em busca delas".

É preciso ler, só mais esta, para ficar com uma ideia da dimensão do que correu mal. "Houve um senhor, dado como morto às 22.30 horas, com o INEM a ter uma chamada dele a pedir socorro uma hora depois. Houve feridos que morreram em agonia". A violência daqueles dias não pode, não deve, ficar oculta com base na alegada proteção de dados, quando, diz o coordenador, nem sequer há nomes das vítimas no tal capítulo. "Não se pode informar o país"?

Pode. Deve. Como aos portugueses têm de ser explicadas as razões que levaram um secretário de Estado, agora ex, a ignorar ofícios e correios eletrónicos trocados pela Proteção Civil mais de 15 dias antes da outra tragédia que varreu o Norte e o Centro do país.

Emails avisando para o que se antevia: uma quinzena de outubro quente, seca e com temperaturas acima da média. O pedido de reforço de meios humanos e aéreos. A 1 de outubro, os bombeiros no terreno ficaram-se pela metade. O número de horas de voo contratadas ficou por fazer. Os hélis deixaram de voar. O drama do que se passou a seguir não tem descrição, vocês sabem.

Dizia-se então que a lição tinha sido aprendida com Pedrógão. Não foi. Não tinha sido. Porque estava tudo por contar. Porque está muito por contar. E nenhum povo se reconcilia consigo próprio sem a verdade a que tem direito.

* DIRETOR-EXECUTIVO