Opinião

Entrar ao pé coxinho

Não. Definitivamente os dias fechados, ensimesmados, ao mesmo tempo carregados de boa vontade e de amor ao próximo, só tenderam a tornar-nos mais associais. É uma generalização perigosa, como todas, mas que sublinha o que foram as intenções e o que são os atos.

Olhar o passado recente, a quente, é ver o melhor e o pior.

Na Saúde, o número de médicos aposentados a aumentar cerca de 50% numa altura em que o Ministério abriu uma exceção para contratar reformados e com as listas de espera para doentes não covid a dispararem. Mas foi nos hospitais que nos reconciliámos com um dos pilares do estado social e o empenho de enfermeiros, auxiliares, técnicos de diagnóstico. E médicos, claro.

Na Educação, o protesto de sindicatos, greves falhadas, o medo dos pais, o caos pandémico anunciado com a abertura das escolas. Mas os professores, muitos, uma classe profundamente envelhecida, mais exposta ao risco, a darem exemplo e o regresso às aulas, mais ou menos bem organizado, a manter a funcionar o elevador social. Já para não falar dos milhares de crianças que puderam continuar a ter uma refeição decente, que de outra forma não teriam.

Sim, a pobreza mora no país. As desigualdades sociais cavaram um fosso ainda mais fundo, o desemprego continua paulatinamente a escalar como uma praga sem vacina, as associações de solidariedade têm os armazéns vazios. Mas o Estado, essa abstração que somos todos nós, tem conseguido acudir a quem mais precisa. Até um dia.

De hoje para amanhã somam doze badaladas simbólicas que todos queremos muito que passem para uma realidade diferente. Uma Europa que dê o exemplo, como fez no planeamento da vacinação à escala continental. Um país, a caminho de duas eleições, onde cresce a intolerância pelo outro, de braços abertos à espera dos milhares de milhões de ajuda europeia. E que os saiba investir.

É entrar ao pé coxinho. Mas mais vale acreditar.

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*Diretor-Geral Editorial

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