A abrir

Eu, pai, me confesso

As crianças que frequentam o primeiro ciclo passam, em média, oito horas e meia na escola. As minhas, os traquinas lá de casa, entram às 9.00 e saem, em média, às 19 horas, já com tudo a que têm direito.

Eu, pai, me confesso. É uma carga que ultrapassa o horário de referência do mercado laboral e que é tantas vezes acrescida de ATL, música, karaté, informática ou inglês. Estão sobrecarregadas, agitadas e sem tempo para simplesmente brincarem e serem crianças.

Os professores acham-nos insuportáveis. Eles acham insuportáveis os professores. Os pais confessam-se. Impotentes.

PUB

Uma greve aos trabalhos para casa (os TPC), como a promovida até final do mês em Espanha, parece carregada de sentido. Qual a validade de massacrar crianças e famílias sem tempo de qualidade, para repetirem tarefas que já fazem durante tantas horas na escola? E que efeitos tem a lista infindável de cópias, tabuadas e palavras difíceis na motivação de alunos esmagados por horários e rotinas?

As respostas seriam evidentes, se o debate não sofresse de vícios de base. É das famílias que tem partido, ao longo dos anos, a pressão pela oferta de cada vez mais atividades extracurriculares, para que a ocupação dos filhos acompanhe as jornadas laborais dos pais. Eu, pai, me confesso.

Atacar os trabalhos de casa é explorar o ângulo mais simples de um problema complexo. Atirando para os professores a responsabilidade de uma sobrecarga que está muito para além dos limites da escola. Tentando curar com aspirina uma doença profunda decorrente do atual modo de vida.

Os trabalhos de casa, desde que moderados e adequados, estimulando tarefas simples e criativas, são um fator importante para que um aluno crie hábitos de estudo. Hábitos esses que não nascem de forma espontânea e que mais tarde, no percurso escolar, vão fazer-lhe falta. São um meio de ganhar autonomia, de aprender a fazer pesquisa, de envolver os pais ou irmãos mais velhos quando necessário.

Desde que sem exageros, os TPC não estão errados. O que está errado é a sobrecarga. O que está errado é que as crianças tenham um horário de trabalho superior a 40 horas semanais. Para acompanhar o horário de trabalho dos pais. Mas discutir isso, claro, dá muito mais trabalho do que criticar e pedir para eliminar os TPC.

Eu, pai, me confesso. A culpa dos TPC é não haver TPC. A culpa dos professores é não perceberem os pais e os alunos. A dos pais, não perceberem os professores e os filhos. Só os filhos não têm de perceber nada. São crianças. Têm de ser percebidas.

P.S.1. O Orçamento da austeridade, semântica nas palavras, real nos bolsos, está aprovado. Só se espera que seja bem executado.

P.S.2. Marcelo Rebelo de Sousa veio pôr ordem na Caixa Geral de Depósitos, ao exigir transparência. Valha-nos o presidente.

DIRETOR-EXECUTIVO

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG