Opinião

Falta de confiança

Enfrentamos os dias de confinamento conforme os estados de ânimo. E não há piores decisões do que as que são tomadas por impulso, consoante o humor, ou sujeitas a pressões mais ou menos veladas. Este é, portanto, o momento em que o Governo decide não decidindo, esperando que o tempo decida.

Por várias razões. Não quer correr o risco do Natal e dos dias trágicos que se seguiram, sem que hoje haja unanimidade dos cientistas, da sociedade civil e dos agentes políticos para o início do desconfinamento. Objetivamente, os números de novos infetados mantêm-se abaixo dos dois mil diários, um dos dados positivos, mas os de ocupação de camas nas unidades de cuidados intensivos ainda estão dois terços acima das 200 mencionadas pelo presidente da República como barreira para abrir ou não o país.

A última razão prende-se com a ausência de critérios claros que deveriam ter sido fornecidos pelos especialistas, mas que não são por faltarem estudos epidemiológicos que estão atrasados, por falta de médicos de saúde pública, e porque os próprios especialistas opinam ao sabor da própria opinião. Eis por isso que passamos de "o país não aguenta voltar a fechar", nas palavras de António Costa no verão, ao não podemos desconfinar, subjacente no adiamento da decisão.

Não é por acaso que essa insegurança está latente na sondagem divulgada pelo JN, TSF e DN, segundo a qual a maioria dos portugueses entende que as escolas, as que segundo o Governo serão as primeiras a reabrir, devem estar fechadas até 15 de março e uma parte significativa só quer o ensino presencial depois da Páscoa.

E é também por isso que o ministro da Educação, que foi o único a querer manter as escolas abertas, pelo interesse que pareceu genuíno em evitar que as crianças e os alunos vejam o seu futuro penalizado, tem hoje pouco suporte político para uma abertura faseada, mesmo depois de uma carta aberta com dezenas de subscritores, entre peritos e personalidades ligadas ao Ensino, o pedir. E nem por outros países europeus, com mais casos e menor capacidade instalada, o terem começado a fazer.

Andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Sem estratégia que não seja ficar em casa.

*Diretor-geral Editorial

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