Opinião

Ficar para trás

Quando um presidente candidato reeleito centra o discurso de vitória nas mortes, nos infetados, em todos os que vão ficando para trás nos dias sem memória que atravessamos, está a colocar-se sob os holofotes de todas as esperanças.

É assim que voltará a ser olhada, quando for anunciada, a renovação do estado de emergência, com pequenas variações, como a previsão da possibilidade de ensino à distância ou o encerramento de fronteiras.

Sabíamos que iríamos contar com sucessivos prolongamentos (o aviso foi feito logo no início de novembro), e Marcelo Rebelo de Sousa alertou mesmo que poderemos esperar que a situação se mantenha até à posse para o seu segundo mandato, a 9 de março.

Mas não deixa de ser cada vez mais difícil evitar ou ignorar um sentimento de desânimo coletivo. Desde logo devido aos dias avassaladores que se vivem dentro dos hospitais, com sucessivos recordes na mortalidade. E porque sabemos que a exaustão social é acompanhada e agravada por uma exaustão económica do país. Quanto mais demorarmos a sair do indesejado confinamento, mais difícil será pôr mãos à obra e passar à fase seguinte, de recuperação do país.

Marcelo Rebelo de Sousa fez, na noite da reeleição, uma leitura muito lúcida do estado em que nos encontramos e dos riscos que nos traz o medo e o desespero. O mais difícil será conseguir convocar os portugueses para a esperança. Não basta traçar os objetivos para recriar o país num discurso inspirado.

Fazer acreditar quando tudo parece desabar está ao alcance de muito poucos. Menos ainda conseguir influenciar e mobilizar todos os atores para a gigantesca missão que temos pela frente, quando continuarmos a somar vítimas mortais semanas após o confinamento. Depois de ganhar os votos, é preciso ganhar o país. Ou perdemos todos.

Este é o tempo dos homens maiores do que a história. Ainda os há?

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Diretor-geral Editorial

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