Opinião

A greve e o respeito pela vida

A greve e o respeito pela vida

No princípio eram as reivindicações. Genericamente justas, porque os enfermeiros foram ao longo dos anos um elo essencial desconsiderado na cadeia dos cuidados de saúde.

No fim, um método de luta e um discurso inaceitáveis, que deixam os profissionais isolados. A greve às cirurgias é nova em muitos aspetos. Com um risco evidente: abre espaço às críticas e tentativas de limitar um direito que deveria ser inquestionável.

Nas ferramentas usadas, na forma como se move fora dos movimentos sindicais e no sistema escolhido para se financiar, a greve em curso escapa à lógica tradicional dos protestos. Ao combinar a capacidade opaca de financiamento do "crowdfunding" com a eficácia do protesto, consegue efeitos brutais a custos mínimos.

Há, nesta equação, um problema inultrapassável. A forma de luta colide e esmaga o direito de acesso à saúde. Com a agravante de estarem comprovados sucessivos desrespeitos a serviços mínimos, com cancelamento de cirurgias urgentes em áreas tão sensíveis como é a oncologia. A requisição civil é nestes casos justificada. Mais, chega num momento em que social e politicamente os argumentos dos enfermeiros já se tornaram insustentáveis.

Atingido um ponto de não retorno em que a avaliação sobre o braço de ferro passa para a esfera dos tribunais, fica a imagem de um Governo incapaz de resolver o conflito em sede negocial, primeiro à mesa de reuniões e depois na salvaguarda eficaz da definição de serviços mínimos. E fica a importância de refletir sobre o quanto um protesto se pode converter num enorme tiro no pé.

É certo que causar impacto é o objetivo de qualquer greve e nesse sentido ela será tanto mais eficaz quanto mais perturbar a vida dos cidadãos. Mas há limites claros, legais e éticos. E o respeito pela vida é inquestionavelmente o maior de todos.

*DIRETOR