Opinião

A infantilização do voto

A infantilização do voto

Já passou. Já foi chumbado no Parlamento. E foi inexistente a discussão pública. Mas no longo período eleitoral que atravessamos vale a pena persistir.

Aos 16 anos um jovem pode casar-se ou mudar de sexo. Passa a ser criminalmente responsável e portanto punido pelos crimes que cometer. Pode trabalhar e pagar impostos. Ou tirar a carta de condução em algumas categorias de veículos, com autorização dos pais. Mas votar aos 16 anos? A julgar pela reação dos partidos, a ideia afigura-se absurda.

O debate, insiste-se, não é de todo descabido. Desde logo porque inúmeros países têm essa experiência, com resultados que vale a pena estudar, sobretudo no que diz respeito ao interesse pelo sistema político em idades mais precoces. Depois, porque esta reflexão nos convoca para as causas das elevadas taxas de abstenção.

O problema não é tanto antecipar ou não o direito de voto. É como atrair os jovens às urnas. É como convencê-los de que as escolhas fazem diferença. Ainda que a abstenção seja transversal a todas as idades, é inequivocamente mais elevada nas faixas mais jovens. O que indica uma grande descrença na política e a sensação de que os políticos não fazem diferença na vida de quem vota.

Há muitas causas para esta sensação, da corrupção aos erros de um sistema que protegeu poderosos e arrogantes como Joe Berardo, o mais mediático tema da primeira semana de campanha para as europeias. Mas a maior de todas será a menorização dos eleitores, bem patente na forma pequenina como os nossos políticos se dirigem a quem vota.

A infantilização não está apenas na consideração de que um menor de 18 anos é incapaz de fazer escolhas esclarecidas. Está nos dedos em riste, na ausência de ideias, na falta de programas mobilizadores, na total ausência de projetos participativos que coloquem os jovens a fazer-se ouvir e a decidir. Na arrogância de eleitos que devem questionar-se mais sobre a razão de tantos quererem saber tão pouco do mundo deles. Porque esse deveria ser o nosso mundo.

Diretor