Opinião

Comboio da festa

Os vícios do poder assomam nas pequenas coisas. Nos gestos aparentemente inofensivos. Na falta de cuidado com o ser e o aparentar ser. Nos partidos, começam devagarinho nos corredores do favorzinho e acabam frequentemente em investigações judiciais que, à força de serem tantas e tão diversas, também acabam em nada. É verdade.

A um partido, e a um partido do poder que governa, exige-se contenção na exposição pública desse poder. Exige-se transparência e boas contas éticas e morais de quem rodeia e influencia a cadeira do dito poder. Mas não faltam exemplos, da Esquerda à Direita do arco da governação, em que nada conta e nada vale. Adiante.

Fretar comboios especiais para transportar militantes entra no domínio da duplicidade da relação de um partido com o Estado. Percebe-se bem a ecologia da opção justificada pelo PS para levar os seus fiéis do Sul ao Norte para a festa da rentrée em Caminha. E o convívio que proporciona, menos fechado do que em autocarros, sempre tão mobilizador para os tempos que aí vêm. Ano eleitoral, Orçamento do Estado em negociação com os partidos que suportam o Governo, e uma Direita incapaz de se unir, quanto mais de ter um projeto para o país.

Percebe-se até bem que os comboios especiais da CP, um serviço cada vez mais utilizado por escolas, municípios ou empresas, representem uma estratégia para aumentar os clientes e as receitas. E até se percebe melhor que o PS, como partido responsável de Governo, queira dar um contributo e o exemplo.

O que já não se percebe é que o comboio fretado tenha prioridade sobre todos os outros, num momento em que o desinvestimento na ferrovia ultrapassa todos os limites, em que o serviço prestado é terceiro-mundista, com atrasos recorrentes, suspensão de percursos por falta de ar condicionado, viagens infernais descritas pelos passageiros.

Nada que suceda no comboio da festa. Porque também aí o serviço é especial.

*DIRETOR-EXECUTIVO