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Opinião

Brincar aos tropas

A constituição de arguido do ex-ministro da Defesa no âmbito da investigação ao furto do material de guerra de Tancos por denegação de justiça e prevaricação não é apenas "socialmente destruidora", nas palavras do próprio Azeredo Lopes. É uma bomba ao retardador com data marcada para meados de setembro, altura em que deverá ser deduzida a acusação sobre o desaparecimento das armas, cujos estilhaços cairão sobre António Costa em pleno período da campanha eleitoral.

Das declarações do ex-ministro e do empastelamento de informação daqueles dias mantém-se um manto de obscuridade que cabe agora à Justiça destapar, depois de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, liderada pelo socialista Ricardo Bexiga, ter ilibado, com o apoio da Esquerda, o ex-ministro de qualquer responsabilidade política. E atribuindo culpas aos governos anteriores por nada terem feito para evitar o estado de abandono e degradação dos paióis.

O que se sabe é que Azeredo Lopes pouco contribuiu para o esclarecimento, com certeza imbuído das melhores intenções para pôr fim a um episódio que manchou a credibilidade das Forças Armadas e que colocou em causa a segurança nacional.

As declarações que proferiu são, a esse nível, esclarecedoras. Disse, logo após haver notícia do desaparecimento de armas, que o país estava perante um "facto grave", para logo a seguir menorizar, sugerindo que, sem provas, "no limite pode não ter havido furto nenhum". Disse, um ano depois, em outubro de 2018, já depois de se saber da encenação da PJ Militar para recuperar o armamento, nunca ter sabido de qualquer embuste, para depois se demitir quando confrontado com o conhecimento que terá tido do memorando que relatava o encobrimento.

O que se espera da investigação judicial é que fique claro o que efetivamente sabia o ex-ministro e até onde ia no Governo a cadeia de informação, num caso em que não faltam todos os ingredientes de manipulação da opinião pública, com tentativas de permeio de envolver o presidente da República, e de uso e abuso do exercício do poder.

*Diretor