Opinião

Conversas de família

Sim, o presidente da República tem razão quando carrega nos tons da ética para falar sobre a intrincada teia de relações familiares que pululam no Governo e na Administração Pública.

Não, não tem, ou não a tem toda, quando diz que é preciso mudar a lei. Porque a lei e as propostas para as quais todos os partidos se apressam agora a mostrar disponibilidade não mudam a mentalidade dos homens. Mas se a moral tiver de ser de lei, moralize-se.

Aquilo a que temos vindo a assistir é um sintoma de como os partidos funcionam em circuito fechado, de endogamia, importando pouco a histeria cheia de telhados de vidro de Esquerda e Direita em contabilizar as nomeações por parentesco familiar, de grupo, ou partidário. Atuais e anteriores.

O que todos estes episódios revelam é uma falta de cultura política, de bom senso, de rigor e de transparência por contraponto a graus de exigência mínima, que não deixam ninguém bem na fotografia. Pior. Acentuam a clivagem na perceção de um país dividido entre as mordomias do passe social de quem sobe na vida à boleia da filiação concentrada no Terreiro do Paço, e do resto do país, aquele que discute o passe social mas para os transportes públicos porque vive no limite dos mínimos, sem outro passe para o elevador social.

A um mês das eleições europeias, a poucos meses das legislativas, ninguém parece perceber que todos saem a perder com a erosão do regime democrático, tantos são os danos irreparáveis que o somatório de casos e a memória de outros tantos provocam.

A História negra dos povos é uma acumulação de pequenos atos, que vamos relevando, simplificando, como se esses átomos não tivessem importância para o todo. Mas têm. E a história a que estamos, enquanto país, a assistir por estes dias é de descrédito, de falta de visão, de personagens sem grandeza. E é assim que nos destruímos como sociedade.

*DIRETOR

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