Opinião

E agora, Rui Rio?

Não foi só o Governo que começou a cair com a aprovação pelos deputados da contagem integral do tempo de serviço dos professores. E o que é difícil de perceber na crise política que ameaça o país é a falta de previsibilidade de toda a Oposição.

É ninguém ter entendido que a António Costa bastava uma desculpa para deixar cair o Governo, recentrar o partido, livrando-se com subtileza dos parceiros parlamentares da Esquerda e tirando Rui Rio da equação.

Mais. António Costa teve o cuidado inteligente de salvaguardar o presidente da República, de quem acabaria por depender o veto ou não da lei, sabendo-se que Marcelo tem não só destacado o problema mais global da reposição do tempo de serviço dos professores, nomeadamente os pensionistas ou na criação de desigualdades face à restante Função Pública, como a estranheza de ser o atual Parlamento a condicionar orçamentos de governos futuros.

Mas Costa não o fez apenas por respeito institucional. O primeiro-ministro não quer governar sem ter as garantias da Esquerda num acordo que chegou ao fim com a aprovação do Orçamento do Estado, sabendo que o país está mais suscetível aos protestos, e que há alterações legislativas em lista de espera no Parlamento desgastantes para o Governo, como a Lei de Bases da Saúde ou a legislação laboral.

Não havendo mais nada para dar após a política da "devolução de rendimentos", não há outro caminho para chegar à maioria absoluta que não agitar a bandeira das boas contas públicas e da imagem externa do país, os maiores trunfos do primeiro-ministro.

Rui Rio, a quem fica colada uma perceção de oportunismo político de que dificilmente se livrará, que desbarata o trunfo do rigor das contas certas, tem como única alternativa invocar o interesse nacional, abster-se na votação da lei e deixar o acerto de contas para as eleições.

Porque ninguém percebe a votação do PSD, por muito que ele se perca em explicações.

*DIRETOR