Opinião

É preciso saber a verdade

Este é o momento fácil para apontar os maus e querer ficar do lado dos bons. E é um momento sem zonas cinzentas. No fundo, é o espelho da imagem que José Sócrates cultivou ao longo de anos de exercício do poder - uma figura que gerou e gera ódios intensos e duradouros (muitos), paixões cegas (poucas), nenhuma indiferença. É, também por isso, o momento em que o país deve, desta vez, contentar-se apenas em obter a verdade das coisas e em recusar-se a ficar no meio, esse exercício contorcionista de achar que é aí que está a virtude. Não está.

O processo Casa Pia foi, a esse propósito, paradigmático. Não só por ter querido romper com um país de virtudes públicas e pecados privados, mas sobretudo pelo que representou para as massas populares uma Justiça que antes parecia só castigar os desvalidos e remediados, deixando os poderosos de fora. Foram detidas figuras do nosso conforto televisivo e, dentro do Parlamento, acompanhado por câmaras de televisão, preso um deputado ex-ministro do PS, partido que ficou desfeito com as fugas e pseudofugas de informação. Ao fim de anos de julgamento mediático e de barra do tribunal, não ficámos a meio. Mas quase.

A detenção do ex-primeiro-ministro e nos moldes em que ocorreu, depois de um ano marcado por casos como o BES, a Tecnoforma envolvendo Pedro Passos Coelho, a condenação à cadeia do antigo ministro socialista Armando Vara e, mais recentemente, o caso dos vistos dourados, mostra o prosseguimento de uma aparente purificação do sistema.

Mas um erro, ou um crime, cometido por José Sócrates não é o mesmo que um erro ou um crime cometido por um cidadão vulgar. Da mesma forma que um erro cometido com José Sócrates não é o mesmo que um erro cometido com um cidadão qualquer. Não porque o facto de ele ter sido governante deste país lhe confira algum tipo de impunidade, não confere, muito pelo contrário, mas porque não há memória na história da nossa democracia de alguém ter estado tanto tempo sob o lume brando da Justiça (processos Freeport, Face Oculta ou Cova da Beira, por exemplo) e tão mediatizada.

E é por isso que não podemos deixar de nos interrogar sobre o modo e o método em que esta operação assentou. Havia perigo de fuga? De destruição de provas? É admissível a prisão preventiva? O circo mediático montado, com algumas televisões e alguns jornais a fazerem a espera no aeroporto, não representa uma violação flagrante do segredo de Justiça?

A Justiça, ao agir desta forma, sabe que também está a ser julgada. E por isso tem de ter provas consistentes para não sair descredibilizada. Porque quando a Justiça perde, somos nós, cidadãos, nós corpo coletivo e individual no composto social, que perdemos. Esperemos que não seja assim.