Opinião

Regionalização e poder

Regionalização e poder

Aumento de impostos. Caciquismo. Um país pequeno onde se chega a qualquer lugar em pouco tempo. Gastos de dinheiros públicos. Divisões. O exemplo de Espanha. Em suma, regionalização.

O palavrão só de si escalda. O Norte, o Sul e o Centro contra Lisboa. Mas é Lisboa quem está bem. Os outros é que não. E quem não está bem põe-se bem. É o que diz a sabedoria popular. Então, com tanto país a querer, como revela a sondagem da Pitagórica para o JN, segundo a qual a maioria dos portugueses quer pelo menos discutir, exceto a capital, então, escrevíamos, porque é que a duas semanas e pouco da escolha de um novo Governo os partidos fogem a colocar na agenda uma das reformas mais importantes para o país?

Porque o poder, os recursos financeiros, a famosa distribuição dos dinheiros, a concentração do capital social está no Terreiro do Paço e arredores. E quem não está lá quer ir para lá sem mexer no que está. É simples.

Leiam este exemplo, verdadeiro. Uma cadeia internacional de supermercados instalou-se em Portugal. E apostou onde se produz. No Norte. Está tudo na região. Os espaços. O trabalho e os produtos. Obviamente, os consumidores. Menos o que obviamente seria óbvio. A logística. A administração e comunicação. As ligações ao poder. Estão em Lisboa.

Poder. De acordo com os resultados da sondagem, o "não" às regiões só vence entre os inquiridos residentes em Lisboa. Uma primeira explicação está noutra pergunta: até que ponto as decisões e os poderes estão concentrados na capital? Dois terços dos portugueses respondem que está praticamente tudo em Lisboa. Já quanto aos habitantes da Região, só metade partilha da crítica à macrocefalia lisboeta.

Discuta-se. Chame-se regionalização. Efetiva descentralização administrativa. Organização territorial. O que for. Porque o país precisa. Portugal é um dos países mais centralizados da UE e da OCDE, que tem estudos que mostram à saciedade que a economia cresce na medida da maior descentralização, e que em Portugal as regiões que mais contribuem para o crescimento são as mais atrasadas.

Como aqui já se escreveu, há espaço para um nível de poder intermédio, que aproxime as decisões políticas das populações, que ajude a atenuar as graves disparidades regionais, entre o interior e o litoral, o Norte, o Sul, o Centro e Lisboa, cidade. E há todo um modelo de desenvolvimento a discutir.

Essa sim é uma verdadeira reforma.

*Diretor