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Opinião

Roubo de sacristia

Roubo de sacristia

E quando deixarmos de ser genuínos? E quando passarmos a ser generosos levados mais pelo peso da moral judaico-cristã do que pelo ato mais são de dar porque nos preocupamos? E quando passarmos a olhar de lado, desconfiados, e começarmos a dar menos? Nos hipermercados, na rua, nos apelos à solidariedade? No peditório da igreja com um olho posto no sacristão?

As denúncias do desvio de meio milhão de euros dos donativos de Pedrógão para a reconstrução de casas de segunda habitação, ou devolutas há décadas, através de esquemas engendrados pelos proprietários como a mudança da morada fiscal, são graves pelo que são e pelo que contribuem para abalar a confiança que temos uns nos outros e nas instituições.

Mas são mais graves ainda porque a imoralidade, ou a amoralidade, é piramidal. Vem de cima. Tem exemplos. Das investigações sem fim aos que já foram os donos do regime, a ministros que acumularam vencimentos despudorados públicos e privados, a deputados com casa própria em Lisboa e moradas fiscais fora da capital para melhores cálculos de ajudas de custo e abonos de deslocação.

Não se trata, como tentava explicar o autarca de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, da inveja de pessoas que queriam ter uma casa nova. Ou de, no caso dos deputados, estar dentro do espírito da lei, sem qualquer reprovação ética, na justificação de Carlos César, presidente do Partido Socialista e líder da bancada parlamentar.

Trata-se de servir de exemplo ao alimentar o pequeno esquema, o arranjinho, o descrédito. Trata-se, no fundo, de fazerem todos aquilo que todos fazem. Espreitar a pequena oportunidade. E, por via disso, de destruir a confiança e os mecanismos de interajuda cada vez mais fundamentais com a falência das redes de apoio familiar.

Regressamos às perguntas da casa de partida. E quando deixarmos, de vez, de ser solidários?

DIRETOR-EXECUTIVO

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