Opinião

Simplifica estúpido

Há duas formas de matar qualquer debate sério sobre a descentralização ou, ousando mais, sobre a regionalização, e que os adeptos de um Estado monopolizador e manipulador são vezeiros em usar.

Ambas se socorrem do acrónimo KISS (Keep It Simple Stupid, Simplifica Estúpido) utilizado com os resultados que sabemos pelos defensores do Brexit e que, no nosso caso, não pretendem outra coisa que não seja fazer dos portugueses parvos.

A primeira é transformar a discussão num jogo de futebol, uma espécie de F. C. Porto-Benfica, afastando do campo o país como se em causa estivesse apenas o protagonismo e o poder de duas cidades, quando muito de uma região, o Norte, que teme tanto o poder do Porto como o de Lisboa. É uma ideia simples e eficaz. Nisto, o autarca Rui Moreira foi inteligente ao ponto de afastar da Invicta a ideia de qualquer futura capital regional.

A segunda é a bandeira do medo. E também é KISS. Começa pelo óbvio. A regionalização servirá sobretudo para criar mais uns cargos ao nível local, que por sua vez alimentarão o compadrio, os jobs for the boys, e a corrupção em pirâmide. Metade do trabalho está feito. A outra metade é tornar-nos pequeninos e mostrarmos o quanto somos pequeninos, falando do país pequenino uno e indivisível, já fraquinho de si nas discussões perante o gigante Europa e que mais enfraquecido ficaria. Já para não lembrar o fantasma dos regionalismos espanhóis.

O que não se quer discutir com seriedade é que Portugal é, como o demonstrou uma série de trabalhos aprofundados que o JN publicou ao longo da semana, um dos países mais centralizados da União Europeia e da OCDE, que a economia nos países cresce na medida da maior descentralização, e que em Portugal as regiões que mais contribuem para o crescimento são as mais atrasadas. Há espaço em Portugal para um nível de poder intermédio, que aproxime as decisões políticas das populações, que ajude a atenuar as graves disparidades regionais, entre o interior e o litoral, o Norte, o Sul, o Centro e Lisboa, cidade. E há todo um modelo de desenvolvimento a discutir. Portanto, sobra a questão: a quem interessa o silêncio? KISS.

*DIRETOR