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Volta, Pedro Arroja

Uma brincadeira de mau gosto não deveria merecer mais do que a indiferença. Isto, acreditando nós que o cartaz posto a circular pelo Bloco de Esquerda nas redes sociais é só o mau gosto a funcionar. Vamos à síntese: o BE divulgou na internet uma imagem de Jesus Cristo, na qual se lê "Jesus também tinha 2 pais". Pretende assinalar a data de 10 de fevereiro de 2016, dia em que o Parlamento confirmou as leis vetadas no final de janeiro pelo presidente da República, Cavaco Silva, sobre a adoção por casais homossexuais e as alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez.

E agora vamos à defesa, comunicada pelo punho do Bloco. "Não se trata de um cartaz, mas da forma de, nas redes sociais, com recurso ao humor, chamar a atenção para a conquista da igualdade entre todas as famílias".

Estamos esclarecidos quanto à brincadeira. Mas há brincadeiras de mau gosto que ultrapassam todos os limites. O humor do Bloco começa logo por ter esse pequeno problema de rigor: para ser inteligente e ter alcance, teria de partir de alguma base minimamente correta do ponto de vista teológico. Não é o caso.

O problema vai, contudo, muito além da total ignorância com que, nos tempos que correm, a maior parte dos ateus ou agnósticos se pronunciam sobre questões de fé. É um cartaz provocatório, que conota todos os cristãos com uma imagem de preconceito e intolerância relativamente à homossexualidade. Quando o que não faltam são movimentos de cristãos homossexuais. Deputados, comentadores e destacados membros da sociedade civil católicos mas favoráveis ao casamento e adoção por casais do mesmo sexo.

O objetivo não era afrontar ninguém, apressaram-se a esclarecer deputados bloquistas. E há a nível internacional, insistiram, idênticas campanhas com a figura de Jesus. Argumentos infantis para justificar o que qualquer pessoa vê: claro que um cartaz assim choca. Indigna. Suscita debate. Que alerta para o problema? Sem dúvida. E se era o objetivo, mais vale assumi-lo.

O Bloco de Esquerda vem de dois resultados eleitorais históricos. No segundo, Marisa Matias transmitiu uma imagem humana como poucos candidatos alguma vez conseguiram. E ao olhar para os números das votações, os dirigentes bloquistas sabem, com certeza, que têm entre os seus votantes um pouco de tudo. Incluindo católicos progressistas (se assim se lhes quiser chamar), que se identificam com os valores de justiça social, diversidade e tolerância que o Bloco professa. Foi cada um desses votantes que o cartaz posto nas ruas desrespeitou e estigmatizou. E, ao fazê-lo, o BE demonstrou uma profunda intolerância que lhe fica muito mal.

Nós também podemos brincar. Para ver a reação. E dizer: volta Pedro Arroja, estás perdoado. É a história das esganiçadas, lembram-se? Mas não tem piada, pois não?