Opinião

Pelas crianças

Não é fácil. Porque mexe com os nossos preconceitos mais fundos. Porque deixa a descoberto os nossos receios mais íntimos. Porque, sobretudo porque, o estigma é a pior herança que podemos deixar aos nossos filhos. E vivemos em sociedades, ainda vivemos, profundamente enraizadas no temor do que não controlamos. Contra a diferença do outro.

Mas a decisão ontem tomada no Parlamento é, depois de inúmeras tentativas em que prevaleceu o preconceito, uma viragem da qual esperamos que as crianças saiam a ganhar. Só pode. Não há outra forma de olhar. É a pensar nelas que todas as leis devem ser orientadas e esta mudança legislativa permitirá que mais famílias possam constituir-se sem limitações ideológicas.

Não é ser-se de Esquerda ou de Direita. O resultado de ontem merece que olhemos para o elevado número (19) de deputados sociais-democratas que votaram favoravelmente. Não por serem do PSD, mas por revelarem que há momentos em que a consciência é superior ao pensamento único partidário. E assim deveria ser sempre. Vive melhor o país quando os seus deputados pensam pela própria cabeça.

Não é, insiste-se, ser-se de Esquerda ou de Direita. Ou não deveria ser. A aprovação da lei que permite a adoção por casais homossexuais não traduz sequer uma novidade estrondosa. Reconhece, sim, uma situação que já existe, através de um dos elementos do casal, que não se assume como tal.

Em causa está, pois, o superior interesse da criança. Um conceito muito invocado quando se trata do tema da adoção ou dos processos de disputa pela custódia de menores, mas que nem sempre é interpretado, na prática, como deveria.

Não há estudos científicos que possam sustentar a tese de que crescer numa família com dois pais ou duas mães prejudica as crianças. Mas, à falta de ciência, deve imperar o bom senso. Sem a aflição do estigma. E o bom senso diz que o essencial para o crescimento de uma criança é o amor e a atenção. É uma casa com regras e educação. É uma família. O amor não escolhe crenças nem orientação sexual. E o que não falta são famílias disfuncionais de casais heterossexuais.

Este é o nosso outro receio íntimo. Para lá do estigma. Os valores de família em que nos sustentámos desintegram-se todos os dias. Nos divórcios. No abandono dos pais ou dos avós. Nos maus-tratos. Não é fácil. Andamos distraídos a deixar morrer um modelo de sociedade. E receámos outro. Ou outros. Sem fazer nada. Mas vale a pena acreditar que será melhor. Segurar os nossos mundos velhos e reconfortantes e acreditar nos novos. Pelas crianças. Por nós, também.