Opinião

Marcelo vai mesmo ter saudades

Marcelo vai mesmo ter saudades

A legislatura que agora chega ao fim, fruto de um acordo inédito entre PS, PCP e BE, tem o cimento da raiva à Direita não só pelo que foram os anos duros da crise, e permanente manifestação em querer ir mais longe do que a troika na transformação social do país, mas também pela cegueira do Governo PSD/CDS em perceber os ventos de mudança.

Estes foram tempos de uma centralidade inédita da Assembleia da República na vida política portuguesa, cujo maior pecado esteve na incapacidade dos deputados em aproveitarem o momento para se aproximarem dos eleitores. Pelo contrário, contribuíram ainda mais, com a sucessão de casos, das faltas aos subsídios das viagens, para o descrédito perigoso de quem tem por missão dirigir e representar a nação.

Se havia dúvidas sobre essa relevância, elas dissiparam-se com a aprovação de leis à Esquerda e à Direita na última sessão do Parlamento, nomeadamente a da Lei de Bases da Saúde e as alterações à legislação laboral. Foi, tem sido, um trabalho meritório de António Costa. Mas é preciso ir mais longe e perceber que o eixo do poder também se deslocou para Belém. É um poder que ultrapassa o magistério de influência e que emana proporcionalmente da relação do presidente com o povo.

Não é por acaso que Marcelo Rebelo de Sousa assumiu vir a ter "verdadeiramente saudades" desta Assembleia da República, aguardando o veredicto do voto nas eleições legislativas para saber qual será a próxima composição e esperando que "o relacionamento seja tão bom quanto o foi neste quadro institucional".

Dificilmente o será, como o chefe de Estado sabe, se as sondagens se confirmarem nas urnas. Um PS próximo da maioria absoluta, sem António Costa ser obrigado a ceder a Marcelo, e o partido de onde emana, o PSD, incapaz de marcar a agenda, dividido em múltiplas candidaturas e a acusá-lo de ser o principal responsável pelo descalabro da Direita.

Marcelo pode vir a ter muitas saudades.

*Diretor

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