Opinião

Mudar a agulha

Gostamos de transformar o Mundo em preto e branco. De todos os anos olhar os heróis e os vilões, como exercício de memória, mas sobretudo como catarse coletiva. Importa olhar os dias que passaram e tirar lições, ou ilações.

O que nos domina é a incerteza, a insegurança e o medo. Que tem um nome, com múltiplas variantes. Mas há boas notícias, apesar de parecerem más: os especialistas convergem na leitura de que esta escalada de casos e a dominância da ómicron podem permitir uma nova abordagem. Passamos da pandemia à endemia, tendo para isso de lidar com a covid-19 como lidamos com a gripe.

O que quer isto dizer, na prática? Que deveremos ter uma disseminação controlada do vírus, uma infeção natural sem deixar de proteger os mais vulneráveis. Manteremos restrições que não afetem a via social e reduzam a transmissão, mas deixaremos de ter abordagens muito restritivas ou regras com impacto social. Na mesma linha, a proposta dos especialistas é que se reduza o tempo de isolamento (como a Madeira já o fez, ou ao lado a Espanha), já que a evidência científica aponta para um período de atividade mais curto nesta variante.

Esta é a visão dos especialistas, mas falta perceber o caminho a seguir politicamente. E há ainda a necessária adaptação social. Tendemos a olhar com medo para o número absoluto de novos casos. Agora teremos de estar mais atentos a outros fatores. E sobretudo lidar com uma nova abordagem da doença sem excesso de ansiedade, aprendendo a viver com a covid. Tal como já vivemos com tantas outras doenças.

O que nos domina os sentimentos faz esquecer o que está à volta. Na Europa, sai de cena a chanceler Angela Merkel, a referência e o rosto do protagonismo crescente da Alemanha como motor económico e denominador comum das decisões mais importantes dos últimos 16 anos. E quem entra deixa incógnitas. No Mundo, as difíceis relações entre os Estados Unidos e a China ultrapassam hoje as questões comerciais, que não são de pouca monta, transformando-se no epicentro da geopolítica internacional, em ambiente que se assemelha à Guerra Fria.

Tudo o resto fica ainda mais para trás, das alterações climáticas, à brutalidade agora evidente do regime afegão sobre as mulheres, ao drama dos migrantes. E será ainda mais irrelevante se não formos capazes de mudar a agulha.

*Diretor-Geral-Editorial

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