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Opinião

Não é mentir, é esquecer

Não é mentir, é esquecer

A Sociologia que se dedica a estudar a emigração nunca cessou de procurar explicações para os hiatos de memória dos milhares de portugueses que, nos anos 50 e 60 do século passado, fugiam sobretudo para França da pobreza e do recrutamento para a guerra.

Eram as viagens a "salto". Representavam a busca de uma vida melhor, de novas terras e gentes, mas também havia na memória de quem saía lapsos temporais que ocultavam uma parte da viagem. A mais dura, a que se quer esquecer.

É mais ou menos o que se passa na Comissão Parlamentar de Inquérito à recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, sendo que aqui a disciplina a estudar é menos a da Sociologia e mais a da Psicologia do mal. O cardápio de saltos temporais, de falhas de memórias, de sobranceria para com os representantes da nação, de irrelevâncias relevantes que se omitem, atingem o limite quando o responsável pelo Banco de Portugal em 2007 se esquece de mencionar o conhecimento que teve do empréstimo de 350 milhões da Caixa a Berardo para financiar a compra de ações do BCP.

A 28 de março passado, Vítor Constâncio negou aos deputados ter sabido de qualquer empréstimo. Há dois dias reconheceu que teve, de facto, conhecimento do financiamento da CGD, nada podendo então, sublinha, fazer legalmente para travar o crédito.

Há, portanto, duas conclusões evidentes face ao que se conhece da correspondência trocada naquele verão de 2007, de que agora Constâncio subitamente viu luz. Uma é que houve amplo conhecimento sobre a forma como a operação de reforço acionista no BCP ia ser financiado, chegando a ser feitas perguntas específicas nesse sentido.

Logo, e essa é a segunda conclusão, quando esteve no Parlamento em março o ex-governador do Banco de Portugal e ex-vice-presidente do Banco Central Europeu no mínimo omitiu (muito), ou esqueceu, outro tanto.

A terceira conclusão é óbvia. Sabendo-se hoje o que esta displicência com operações de risco, entre tantas outras, custou ao país, Vítor Constâncio tem no mínimo obrigação de se explicar com mais memória e verdade. Sem saltos. É isso que se espera dele.