Opinião

Não, não é normal

Como é que chegamos ao ponto a que chegamos? De um país e de um povo exemplar na forma como enfrentou a pandemia há um ano, dos aplausos e das músicas cantadas à varanda em homenagem aos enfermeiros, médicos, técnicos, auxiliares de saúde, ao plano de vacinação que não prevê o que fazer quando sobram vacinas, ao ritmo exasperante a que tudo está a ser feito, aos chicos-espertos e fura-vidas que encontram as explicações mais inaceitáveis para justificarem terem deixado tantos e mais precisados para trás.

Francisco Ramos, o coordenador da "task force" criada para que corresse tudo bem, não é o culpado das manobras baixas que levam o dono do café vizinho do INEM do Porto a ser vacinado porque há "sobras", nem pelos autarcas que se incluíram no grupo prioritário, ou sequer pelo processo de seleção no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, de que é dirigente e motivo que invocou para sair.

Saiu, obviamente, porque lhe mostraram que já era demais. Porque ele é, sim, responsável pelo plano que assumiu e que falhou onde não deveria falhar. Na confiança.

Pouco importa quem afasta ou decide ser afastado. Grave é que, num processo crucial para o país e em que é essencial transmitir segurança, se esteja a revelar incapacidade de gestão e de planeamento para garantir a total eficácia da operação.

Os incidentes com fraudes na vacinação não são um exclusivo de Portugal. Mas deveriam ter sido previstos mecanismo concretos - como nomes de suplentes e um acompanhamento mais claro das listas de pessoas a vacinar - que prevenisse e atalhasse caminho no vergonhoso aproveitamento de que, a cada dia que passa, vamos tendo conhecimento.

Substituir Francisco Ramos por um militar, sobretudo alguém que tenha capacidade para planear em grande escala, é, espera-se, uma oportunidade para corrigir uma trajetória que tem sido errática e para que o Governo tente mostrar que comanda um processo até agora descredibilizado.

No Twitter, António Costa publicou uma mensagem otimista, aludindo à imunidade que a vacina vai gerando e aos resultados que o confinamento começa a produzir. É um equilíbrio precário: o primeiro-ministro precisa de injetar otimismo num país exausto e com a economia devastada, mas tem pouca margem para criar expectativas.

PUB

Vivemos um momento em que a autoridade do Estado está a falhar por inoperância política. E esse é o pior dos sinais.

*Diretor-Geral Editorial

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG