Opinião

Nem dos vivos nem dos mortos

Nem dos vivos nem dos mortos

Percebe-se cada vez melhor a declaração alarmante do presidente da República, quando tentou preparar os portugueses para a possibilidade de termos um Natal diferente.

A escalada dos infetados com covid-19, em Portugal e na Europa, onde todos os dias se batem recordes das dezenas de milhares, faz temer o pior. E o pior é o Serviço Nacional de Saúde revelar-se impotente para tratar as centenas de internados, deixando à sorte todos os outros doentes a precisar de cuidados. Pior seria também se o país voltasse a fechar, com consequências sociais gravíssimas para a grande maioria dos que não têm a segurança dos salários do Estado.

Não apanhar o vírus é uma lotaria. Um jogo de sorte e de azar que também depende, e muito, de nós. Essa é a maior missão que podemos cumprir, no meio de tantas decisões contraditórias e sem explicação, mesmo que pareçam ter lógica. O que não se entende, de todo, é que simultaneamente se permitam grandes eventos e se proíba a ida aos cemitérios, com o temor das multidões.

É verdade que a fé e a necessidade da espiritualidade levariam muitos a visitar os que mais lembramos. Mas o vírus não escolhe datas, nem moradas, nem mesmo a última, a daqueles que já perdemos. E não há outra forma de o combater a não ser assumir, individual e coletivamente, que temos mesmo de olhar uns pelos outros, o que não se decreta por lei. Ou não cuidaremos dos vivos. E continuaremos a não poder cuidar dos mortos.

P.S. Uma das razões por que o PCP tem segurado o seu eleitorado reside na confiança, na certeza dos simpatizantes de que na hora da verdade o partido percebe o momento em que o país é mais importante do que a luta política. Mesmo tendo sido quem mais perdeu nas urnas com o apoio ao Governo na última legislatura, os comunistas têm a consciência de que, nestes tempos duros que atravessamos, o Orçamento do Estado assume preocupações sociais que dificilmente teriam correspondência com outra solução política. E essa é uma grande diferença de atitude quando se olha para o Bloco de Esquerda.

* Diretor do Jornal de Notícias

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