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Opinião

O bom gigante

Embrulhamos as memórias como podemos. Nas histórias. E elas têm saltos no tempo. Esses abismos servem para embrulhar as más em boas. E para guardar as boas como se fossem tesourinhos.

Estas têm anos. São do tempo em que os rapazinhos subiam ao forno de adobe da cozinha. As meninas não. Ficavam cá em baixo a ver como se limpava a fuligem das chaminés para não sujar o Pai Natal. Também havia o menino Jesus, mas esse era mais pobrezinho. Só aparecia de manhã. Nos sapatinhos.

Ele chegava sempre pelo frio. Vindo do outro lado do Mundo. Sobretudo preto, gigante, cabeleira farta sem anos. Fosse a que horas fosse da madrugada. Havia aquele cheiro de casa lavada à espera, caixa de sortidos "Fim de Semana", que depois passaram a ser espanhóis, vinho do Porto a estrear. Só para ele. O vinho. O resto não, que ele comia poucochinho. Não era um Pai Natal Gordo. Nem um gigante barrigudo.

Havia no Cândido esse caminho cego para a casa da "Madrinha" mal aterrava. Como se não houvesse mais nada no Mundo, nem nada mais importasse, uma madrinha sem nada para dar que não fosse ela própria e as memórias que ele carregava, e carrega, dela.

Não há abismos onde se percam aqueles abraços infindáveis, nos quais se desaparece nos braços do outro. E o tempo passa a contar por quem vem de longe. Talvez sejam essas memórias que nos dão a consciência do quanto vamos envelhecendo. Bem ou mal. E do quanto vivemos de ilusões, as que não nos deixam temporariamente fazer parte da indiferença da maioria de que fala o Papa Francisco.

Sermos bons gigantes, nesta época que passa rapidamente, é, também, não deixarmos que todos os abraços que damos, o espírito de solidariedade e de atenção aos outros que achamos que damos, ou damos mesmo, não se apaguem com as luzes da árvore. E apagam. Quase sempre.

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Um país só renasce, só se reconstrói das cinzas e do marasmo, como neste em que a tragédia bateu à porta com uma violência de que não estávamos à espera, se formos capazes de questionar os caminhos que trilhámos, a forma como olhamos para nós, as desigualdades que cavamos. Se não o fazemos, é porque estamos adormecidos. Somos só mais um na multidão de gente pequena.

* DIRETOR EXECUTIVO

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