Opinião

O efeito Chega

O anúncio é claro. A leitura e o que emana da leitura nem por isso. O Governo pretende incorporar, no âmbito da nova lei de videovigilância, câmaras nos uniformes dos polícias, uma das medidas mais reivindicadas pelos agentes depois de algumas imagens de operações terem sido divulgadas através de telemóveis de quem assistiu.

A ideia de um Big Brother ambulante, filmando inocentes e culpados, tem tudo para ser pouco pacífica. E não é por acaso que o ministro Eduardo Cabrita se socorreu dos contributos da Comissão Nacional de Proteção de Dados. Percebe-se também a intenção dupla, face às crescentes desconfianças em relação ao uso abusivo de força, de salvaguardar não só quem tem por missão a segurança das populações, como quem é alvo de ações policiais.

Mas esse duplo efeito dissuasor tem ainda por trás a necessidade de aplacar o crescente descontentamento que se vive no seio das polícias, com o crescimento de organizações inorgânicas como o Movimento Zero, que tem sido sobretudo capitalizado pelo Chega, partido que, goste-se ou não, mostra eficácia a detetar os problemas da corporação, que não encontra respostas no Governo ou nos partidos tradicionais. Como já aqui se escreveu, quando os políticos se desligam das reais dificuldades das pessoas, elas tendem a procurar respostas noutros organismos, mesmo que radicalizados.

Também não por acaso, o ministro Eduardo Cabrita voltou a anunciar a atribuição, até junho, de um subsídio de risco às forças da segurança, uma das principais reivindicações, que de resto já estava prevista no Orçamento do Estado deste ano, bem como a revisão global do conjunto dos suplementos remuneratórios.

Esperemos é que haja consistência. Em França, as políticas tardias começaram com câmaras nos uniformes e acabaram em manifestações de ódio depois de Macron ter proibido a divulgação de imagens policiais violentas por parte dos cidadãos.

*Diretor-Geral Editorial

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