Opinião

O homem só

Quando a política não responde aos anseios, angústias e necessidades dos povos, os povos procuram soluções no primeiro flautista de Hamelin que tiver a pauta certa.

E a política, o exercício da política que tem na sua matriz a entrega sem condições à defesa do Estado de direito, à urgência de medidas que procurem o bem-estar social, que sirvam efetivamente o exercício que está na base das sociedades democráticas, o tal denominador comum utópico do alcance da felicidade para todos, tem falhado no propósito de servir os outros, com os políticos empenhados em servirem-se a si próprios.

Hoje, quando os radicalismos tomam conta da Esquerda e da Direita, em Portugal, apesar de tudo, com a diferença de os primeiros revelarem ainda o respeito pelos mais elementares princípios que norteiam os direitos humanos, ao contrário dos segundos, ser-se do centro, da tentativa de encontrar o equilíbrio, é ser-se do "sistema", do contrário, sujeito ao apedrejamento público. Estamos a perder, enquanto sociedade, a capacidade de discernir, na forma como nos julgamos todos nos dias difíceis que enfrentamos, ou nas trincheiras políticas que cavamos. E a pandemia, ao contrário do que andamos todos a apregoar, não nos está a tornar melhores. Está a tornar-nos piores.

Hoje, se dúvidas havia, percebem-se melhor todos os discursos do presidente da República, alertando-nos para os dias negros que pairavam sobre nós. Para os flautistas que, depois de levarem os ratos, levariam as crianças. E percebe-se também que ele é, em tempos de cisão, em tempos em que não podemos aceitar a normalização da violência da palavra e das intenções, um homem cada vez mais só no espectro político. Sem a Direita, que não é Marcelo, que já só teve Marcelo e que hoje se alia a um seu adversário nas presidenciais, normalizando-o. Sem a Esquerda, apesar de a Esquerda se apropriar da ideia de Marcelo.

Resta-lhe o povo, se o povo não seguir o flautista.

*Diretor

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