Opinião

O inverno de António Costa

O inverno de António Costa

Ninguém poderia esperar do relatório de António Costa e Silva receitas milagrosas para fazer disparar a economia do país.

A proposta de plano apresentada pelo consultor do Governo não traz propriamente novidades, aprofundando sobretudo as linhas de transição energética e apostas que se arrastam há décadas, como a alta velocidade na ferrovia. O documento aponta, contudo, um aviso a que é impossível ficar indiferente. Não tanto pelos números (prevê que a queda da economia possa escalar até aos 12% este ano), mas pela janela temporal que considera decisiva na intervenção do Governo.

Setembro é o mês apontado como marcante na deterioração ainda mais significativa de muitas empresas. Por essa altura já se terá esgotado o oxigénio que poderão ter representado algumas medidas extraordinárias de apoio, e notar-se-á sem falsas expectativas o que valeu, afinal, o verão como oportunidade de recuperação no setor do turismo. Prevendo-se que a ajuda europeia chegue apenas em 2021, só um programa agressivo poderá "evitar o colapso de empresas rentáveis", alerta Costa e Silva, que traça um cenário negro de inverno prolongado na economia em coma.

A somar ao desafio económico, convergem as opiniões dos epidemiologistas de que outubro poderá ser o mês de um novo crescimento das infeções de covid-19, com o Serviço Nacional de Saúde obrigado a responder em simultâneo à pandemia e à gripe sazonal. Os alertas de carências na Medicina Intensiva já fazem soar campainhas, como hoje explicamos nas páginas do JN.

Se juntarmos a estes ingredientes um ano letivo rodeado de incerteza, com diretores e pais a anteverem desde já dificuldades; a necessidade de negociar e aprovar no Parlamento o orçamento mais difícil desde que é primeiro-ministro; e um presidente da República, até agora aliado, em campanha para um segundo mandato, temos a tempestade perfeita a abater-se sobre António Costa.

*Diretor

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