Opinião

O Ronaldo do Eurogrupo

O Ronaldo do Eurogrupo

Os prognósticos, como se brinca na gíria futebolística, fazem-se no fim do jogo. O que não impede de admitir que Mário Centeno parte para a votação que irá decidir a presidência do Eurogrupo, na próxima segunda-feira, com uma posição de favoritismo e apoios de peso que não podem ser menorizados politicamente. Quando assumiu funções, o Governo suportado nas esquerdas parlamentares era olhado com desconfiança por Bruxelas. Dos puxões de orelha iniciais aos elogios pelos resultados alcançados, Mário Centeno assumiu rapidamente uma posição de prestígio.

Não se trata de um mero acaso ou de reconhecimento ao Governo no seu todo. Há um percurso académico pessoal que dá ao "Ronaldo do Ecofin" um ascendente próprio. O currículo do ministro das Finanças, desde Harvard até ao Terreiro do Paço, é o seu primeiro trunfo entre os homólogos. Mas uma vitória pessoal será, inegavelmente, uma vitória política do Governo. Que se empenha na corrida a um cargo de prestígio e aposta na tese de que as boas contas dão frutos junto dos amigos europeus.

Não é fácil medir o impacto que poderá ter Mário Centeno no Eurogrupo, prestes a iniciar um momento de profunda reforma. Estar num cargo de topo permite seguramente influenciar mais as políticas e esse papel não deve ser minimizado, ainda que tenha de ser enquadrado por todas as regras, tratados e jogos de forças que limitam as linhas seguidas. Se há tantos anos Mário Centeno aponta as desigualdades como um dos maiores riscos para a União, ter no Eurogrupo uma visão mais flexível certamente não será igual a manter uma linha dura como tem sido a de Dijsselbloem.

O maior desafio poderá ser, ainda assim, interno. O crescimento global tem dado uma ajuda ao percurso positivo das contas públicas, mas as exigências políticas serão crescentes à medida que se caminha para o final da legislatura.

Nesse aspeto, o presidente da República tem razão. Centeno faz mais falta ao país do que fora dele. E não é fácil encontrar um perfil bom para uma pasta tão sensível, mais a mais alguém que junta competência e alguma popularidade.

Ora, um ministro das Finanças com um pé dentro e outro fora terá necessariamente maior dispersão e só com fortes apoios da sua equipa conseguirá evitar erros. Depois de segunda-feira, Mário Centeno poderá sair reforçado. O Governo poderá ver-se obrigado a reforçar-se.

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* DIRETOR-EXECUTIVO

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