Opinião

Os milhares que ficam para trás

Os milhares que ficam para trás

O calvário. É um caminho tortuoso sem alívio pelas palavras bem intencionadas. E, por mais que a intenção soe afinada, o tão repetido mantra de "não deixar ninguém para trás" esbarra na crueza da realidade. Mesmo que a mensagem política seja perfeita. Insistida cá pelo primeiro-ministro. Repetida na Europa por Ursula von der Leyen. A campanha de vacinação deve iniciar-se no mesmo dia em todos os estados-membros, "juntos e unidos" para começar a erradicar a pandemia. E, uma vez que estão asseguradas vacinas para todos, estaremos em condições de ajudar os nossos vizinhos e parceiros.

Os cenários mais pessimistas admitem, contudo, que uma cobertura global da vacina possa demorar no mínimo três anos. E os primeiros sinais já se sentem com o anúncio de que a Pfizer não vai conseguir, por dificuldades na produção, entregar as quantidades de vacinas acordadas. No caso concreto de Portugal, a redução de 20% na quantidade prevista para o primeiro trimestre coloca a primeira fase no cenário mais pessimista - ou seja, previsivelmente a acabar apenas em abril.

A vacinação, como única esperança para se conseguir a tão desejada imunidade de grupo e assim nos livrarmos da pandemia, marcou as prioridades da União Europeia nos últimos meses, com negociações em múltiplas frentes e acordos com várias empresas.

Nem isso, ainda assim, impediu que na hora decisiva persista uma sensação de incapacidade em dar resposta às expectativas das pessoas. A começar na demora em conseguir a aprovação final da vacina, que causou evidentes dissonâncias públicas, acabando por ser a pressão da Alemanha que levou a antecipar a reunião decisiva da Agência Europeia do Medicamento.

O primeiro-ministro já anunciou a vacinação como prioridade da presidência portuguesa da UE, a partir de janeiro. Mas o que pode ser um trunfo político poderá também, correndo mal, transformar-se num enorme pesadelo para António Costa. Com o Reino Unido e os EUA já no terreno, com as discussões entre estados para ver quem ganha a corrida, com a população a pressionar cada vez mais os centros de saúde, a gestão do processo não pode correr mal. Ou será difícil justificar a razão de, uma vez conseguida a resposta da ciência, não sermos capazes de a levar até às pessoas.

Como já aqui se escreveu, mais do que o princípio de uma solução que se perspetiva, a vacina representa sobretudo a expectativa de começarmos a deixar o sufoco dos dias. Mas já há demasiadas pessoas, demasiados países, a ficarem para trás.

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*Diretor-Geral Editorial

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