Opinião

Os números e os velhos

Os números e os velhos

A cada algarismo corresponde um rosto, uma vida. São exatamente 42.439 os velhos identificados como vivendo sozinhos ou em situação de vulnerabilidade que ameaça a sua segurança.

A chamada Operação Censos Sénior 2020 da GNR regista uma pequena subida em relação ao ano passado, mas nem seria preciso essa oscilação para o tema nos inquietar. São milhares, demasiados, concentrados sobretudo nas zonas despovoadas do interior.

Sabemos como os nossos pais e avós têm sido os mais penalizados por esta pandemia. Não apenas porque o vírus é particularmente letal à medida que a idade avança, mas porque muitos se viram afastados das famílias, privados de companhias habituais nas férias do verão, empurrados para uma penosa solidão sem fim à vista.

Inicia-se mais um período de exigentes restrições e paira sobre o país o aviso de que dezembro poderá ter medidas agravadas, se a contenção imediata não der frutos. Os abraços continuam adiados, os fins-de-semana incertos, a aguardada reunião familiar no Natal em risco. É preciso o justo equilíbrio entre a proteção e o acompanhamento possível dos idosos, sem que as medidas restritivas sejam uma desculpa para o abandono. A assistência familiar tem estado em todas as exceções previstas por sucessivos pacotes de limitações e não é por acaso que até as visitas a lares foram flexibilizadas, reconhecendo-se o peso avassalador do isolamento na saúde mental dos utentes. A solidão corrói e mata, ainda por cima de forma silenciosa.

P.S. - Nos Estados Unidos jogava-se muito mais do que uma escolha entre dois candidatos, ou entre duas ideologias. Era uma escolha pela decência, pela tolerância, pelo respeito dos valores institucionais e democráticos. É por tanto que o trumpismo mostrou ser possível, banalizando a política do insulto e o alastrar dos radicalismos um pouco por todo o Mundo, que a mudança nos convoca a todos.

*Diretor

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG