Opinião

Os pais e o medo

A pouco mais de uma semana do arranque do ano letivo, há milhares de famílias que desconhecem o sistema de horários que a escola irá adotar.

Há professores de risco que ponderam meter baixa. Direções preocupadas porque muitos agrupamentos não têm condições para assegurar o distanciamento entre alunos. Pais que procuram alternativas aos transportes públicos ou hesitam na hora de tomar decisões sobre as atividades extracurriculares.

E, sejamos claros, por muito que haja escolas solícitas a enviar atempadamente as turmas, e há, a indefinição e incerteza vão ser a marca insuperável deste ano letivo. Porque nem todo o trabalho de casa foi feito pelos responsáveis mais cedo, por um lado, mas sobretudo porque a pandemia tem os seus próprios ritmos e tempos. Será inevitável que ocorram surtos em estabelecimentos de ensino, como está a verificar-se nos países da Europa que já regressaram às aulas. Não haverá forma de evitar encerramentos e sobretudo o efeito do medo.

Há uma responsabilidade inequívoca da tutela em assegurar condições para minimizar o risco, mas este é também um tempo que exige uma presença atenta dos pais. Nunca como agora foi tão importante acompanharem as decisões e orientações da escola, dialogarem com as associações de pais, estarem atentos aos conselhos e experiências positivas de quem tem conseguido lidar bem com estes estranhos meses.

Além de uma participação serena, o recomeço do ensino presencial exige dos pais nervos de aço. É fácil a tentação de tentar proteger as crianças numa bolha, de evitar qualquer atividade desportiva ou artística, de reduzir ao mínimo o contacto com os amigos. Acontece que ser criança contempla tudo isso e no último meio ano os mais novos já estiveram privados de demasiado.

Precisam de brincar e jogar à bola, de se redescobrir para além das máscaras, de discutir em sala de aula tudo o que ficou por dizer à distância. Precisam de se desligar das máquinas, dos jogos, de um modo de vida que os encolhe. E os pais são os principais atores do que agora começa. O pior que podemos fazer aos nossos filhos é sobrecarregá-los com o nosso medo.

*Diretor

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