Opinião

Os vigilantes

Rui Rio poucas vezes se desdobrou tanto a marcar a agenda mediática como agora. Com o negócio mal contado da venda das barragens da EDP aos franceses da Engie, no qual os transmontanos ficaram a perder 110 milhões de euros pelo estranho caso do não pagamento do imposto do selo, o mais antigo do sistema tributário português, e pela estranha ausência de ação do Governo e do Fisco, este sempre voraz a cobrar aos contribuintes comuns e às empresas em dificuldade. E com a eficácia e a rapidez do processo de escolha dos candidatos às eleições autárquicas deste ano.

É obra para um homem conhecido por ter um tempo próprio, fora da urgência dos dias. Sobram as perguntas e o regresso de Pedro Passos Coelho, se a agenda está certa, em mais uma conferência do Insead, esta quinta-feira.

A primeira é a da oportunidade política. O sucesso do líder do PSD está muito ligado ao resultado das autárquicas. A aposta em figuras com notoriedade, da sociedade civil, do empresariado, do desporto (e aqui pode enfrentar dissabores pela contradição entre o discurso e a prática), umas mais evidentes do que outras; a necessidade de um resultado melhor do que o de 2017, o que não é difícil, foi dos mais desastrosos de sempre, com o PS a bater recordes de câmaras conquistadas; e a antecipação com que está a preparar tudo são um sinal claro disso. Poder ter algo para apresentar sossega-o até às eleições legislativas. Antecipadas ou não.

A segunda pergunta contém outras que assentam na paz interna, logo, na resposta à primeira. Quando Pedro Passos Coelho apareceu em público, a 18 de dezembro do ano passado, para defender o seu legado e atacar a "inação", o "passa-culpas" e os "populismos" do atual Governo socialista, galvanizou as hostes sociais-democratas críticas da atual liderança de Rui Rio. O antigo primeiro-ministro é visto internamente, com mais veemência desde então, como a personalidade mais capaz de unir o partido e relançar o PSD na conquista pelo poder. Ele agrega o eleitorado não socialista e toda a Direita órfã. Mas falta o centro político, onde se ganham eleições. E Rio? Quem consegue juntar? E Carlos Moedas, que parece caído do céu, mas que é dos poucos opositores ao líder do PSD a "correr riscos", citando a punhalada de Rio em Rangel, e na maior Câmara do país?

A terceira é mais pragmática. Crua. Sem resposta. Que país emergirá desta pandemia e que sociedade conseguiremos reconstruir, aplicando como o dinheiro?

*Diretor-Geral Editorial

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG