Opinião

Pai, como é que salto à corda?

Pai, como é que salto à corda?

Às vezes ficamos muito adultos, muito sérios. Muito cheios de nós próprios. O azedume, o olhar baço, nasce assim. Dos dias repetitivos de perda. Dos filhos que entregamos à escola e às redes sociais. Que corremos o risco de ir perdendo com a desculpa do tempo. E há uma vergonha mal dissimulada sempre que damos por nós a achar que somos ridículos quando eles nos pedem coisas simples que vamos deixando para trás. Saltar à corda.

- Papá (o mais novo trata-me sempre assim quando fica sem jeito, quando não é bem um pedido, é um apelo desesperado, e dá um estalido com a língua como fazemos quando tentamos falar castelhano),...tenho provas de aferição e não sei saltar à corda.

A inquietação do pedido não tem culpa direta na escola, onde os resultados da Educação Física no 1.º Ciclo deviam deixar os pais corar de vergonha. A maioria das crianças não só não sabem fazer uma coisa tão simples quanto saltar à corda, como 40% se mostram incapazes de dar uma cambalhota para a frente mantendo a direção e levantando-se com os pés juntos. E 31% não conseguem sequer participar num jogo infantil de grupo.

Não. A culpa não é dos professores assoberbados de programas exigentes para cumprir, embora muitos exerçam a profissão porque sim. Experimentem, pais, dar uma aula na turma dos vossos filhos para perceberem o desespero de quem ensina. Nem é só da falta de condições de muitas escolas, dos horários letivos por preencher, ou dos tablets e telemóveis e jogos de consolas com que encharcamos o tempo dos nossos filhos. A culpa é da culpa da falta de tempo. Estendam agora os resultados da corda à Matemática, ao Português, à História. Ou a áreas que descuramos, no vício das metas curriculares e da pressa, como a Música e a Expressão Plástica. É pobre a nossa herança.

DIRETOR-EXECUTIVO

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