Opinião

Que o Governo governe

É possível que o Governo tenha feito um percurso sólido de planeamento e hoje comunique ao país um plano claro e transparente sobre o que se irá passar nas próximas semanas. A poeira dos últimos dias deixa, contudo, a sensação de que mais uma vez António Costa hesita, omitindo dos parceiros e partidos informações concretas do que se segue e parecendo indicar que aguarda, até à última hora, para decidir o que quer fazer.

Desconfinar é muito mais do que apresentar um calendário e as medidas dos últimos dias mostram um caminho a fazer nas escolas, mas falam pouco para outros setores. Depois de aprovar verbas para testes massivos, o Executivo viu a Direção-Geral da Saúde anunciar a inclusão de professores e funcionários nas prioridades do plano de vacinação. Sobram, ainda assim, dúvidas sobre quando e como se irá operacionalizar cada um destes processos. A questão é sempre a mesma, replicada a cada um dos setores: abrir pressupõe criar condições de segurança que previnam um novo descontrolo.

Costa esteve nas últimas semanas a receber insistentes recados de Belém. Marcelo Rebelo de Sousa foi claro a exigir que o Governo se mantivesse fechado até à Páscoa. A evolução da situação epidemiológica retirou margem ao presidente para manter a pressão, ao mesmo tempo que se ouviram clamores crescentes pelo regresso das crianças às aulas presenciais. Mas o silêncio do chefe de Estado tem dificultado a perceção do que se passa nas comunicações com Costa. E o que dizer dos recados anunciados por Rui Rio, referindo uma alarmante subida do Rt (índice de transmissão) comunicada por Marcelo, não confirmada por nenhuma fonte oficial?

Por muitas que sejam as pressões - políticas, económicas e sociais -, é ao Governo que cabe decidir. E a decisão, como ontem sublinhou o ministro Pedro Siza Vieira, é no limite política. Quando hoje falar ao país, veremos se Costa criou um plano que resista tanto às tentações de agradar aos agentes económicos, como à pressão insistente em manter o país em casa. E, sobretudo, se consegue unir o país nesse caminho estreito e de pedras rumo ao desconfinamento.

*Diretor-geral Editorial

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