Opinião

Radicalização e consciência cívica

Radicalização e consciência cívica

Os crimes cometidos pela brasileira Sara Giromini ao divulgar os dados pessoais de uma criança vítima de abusos sexuais são tão abjetos que não merecem sequer discussão.

Mas ler um pouco mais sobre a ativista e principal porta-voz do grupo armado de extrema-direita "300 do Brasil", conhecida como Sara Winter, arrepia pelo que personifica de movimentos em crescimento um pouco por todo o Mundo e pela rapidez com que passou de uma luta para o extremo contrário.

Em 2012, Sara foi uma das fundadoras brasileiras do grupo Femen, defendendo bandeiras como a igualdade de género e a legalização do aborto. Com uma linguagem que já nessa altura era radical, chegou a "castrar" um boneco que representava o então deputado federal Jair Bolsonaro (de quem é agora fervorosa adepta). Em 2014, publicou vídeos no YouTube em que pedia perdão aos cristãos por ter feito parte do Femen. Seguiu-se uma crescente radicalização nas redes sociais, até à detenção no âmbito de um inquérito que apura a disseminação de conteúdo falso na Internet.

Uma história, uma pessoa, não permite ilações e muito menos lições sobre as motivações de outros ativistas. Mas serve como ponto de partida para perceber como o fundamentalismo, o autoritarismo e a intolerância se alimentam, em qualquer quadrante, do mesmo combustível: o ódio. Se parecem por vezes oscilar tão bruscamente da Esquerda à Direita, é exatamente porque lhes sobra em arrogância o que lhes falta em esclarecimento ideológico.

As informações dos serviços de segurança e polícias portuguesas dão conta de um nível crescente de jovens nos grupos de extrema-direita. Estamos a falar de faixas etárias que, segundo estudos e dados de participação eleitoral, mostram sentimentos de desvalorização da política, sendo mais suscetíveis de se sentirem atraídas por movimentos inorgânicos.

A demonização da política não é um caminho. Pelo contrário, está a faltar-nos consciência cívica e envolvimento dos mais jovens na vida pública. Eles não estão desinteressados do mundo à sua volta. Estão é desligados de um sistema que lhes diz pouco e que se mostra muitas vezes demasiado bafiento.

*Diretor

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