Opinião

Sem lugar à mesa

Este é um Natal cheio de números. Da contabilidade dos afetos que se põem na mesa. E de como se partilham. Ou de como não se devem partilhar. E é frio viver consoadas assim, entre a crueza do afastamento afetivo e a urgência da proximidade.

Não, estes dias não nos tornam melhores pessoas, nem a Humanidade ganha consciência de quão fundo é o fosso que se cava por esta altura entre os que muito têm, os que remedeiam e os que muito já perderam.

E as notícias que nos chegam são pouco ternurentas. Desemprego, associações de solidariedade e juntas de freguesia aflitas com os pedidos de ajuda, velhos, pais, avós, sem lugar à mesa, com sorte talvez um telefonema ou uma videochamada, as ausências definitivas.

Os dramas atuais da pandemia não se podem diluir na nossa ausência perante as dificuldades dos outros. Viver este Natal, como o estamos a viver, onde nos faltam tantos, onde nos faltam os emigrantes, arrastados também eles pela insegurança e os muitos medos que nos povoam, com os hospitais lotados e a ameaça que paira sobre todas as ceias, tem forçosamente de nos convocar para a responsabilidade individual e coletiva que nos cabe.

Somos todos obrigados, pelo menos nesta quadra, se mais não conseguirmos, a perceber a necessidade do justo equilíbrio entre a proteção e o acompanhamento possível dos velhos, em lares ou na solidão das casas, dos doentes, dos vizinhos aflitos, de quem trabalha ao nosso lado, sem que os cuidados a ter com os contágios sejam uma desculpa para o abandono.

Como também aqui já se escreveu, mas que é preciso repetir até à exaustão, a solidão corrói e mata. De forma silenciosa.

Diretor-geral Editorial

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