Opinião

Sem tempo para o luto

Um incêndio que causa a morte a 64 pessoas não pode deixar de ser alvo de inquérito e de estudo rigoroso, que permita responder a todas as questões e a não deixar margem para a menor dúvida sobre o que aconteceu a 17 de junho de 2017. E as respostas têm de ser dadas a vários níveis.

Antes de tudo, no plano criminal. Se houve responsabilidades, quer sejam de intenção criminosa ou causadas por negligência, têm de ser apuradas e é essencial que o Ministério Público e a PJ desenvolvam a investigação com todos os meios, em serenidade e com condições de não deixar dúvidas no momento de encerrar o processo.

Há, também, respostas que se exigem no plano técnico. Que obrigam a estudar uma tragédia ímpar, para que se tirem todas as lições e evitar que se possa repetir no futuro. E o futuro não é para o ano. É já amanhã. Que a coordenação de tal estudo tenha já sido pedida a Xavier Viegas, o maior especialista do país, é uma decisão sensata.

Não podem, ainda assim, deixar de ser dadas respostas políticas. E essa é uma responsabilidade que ultrapassa em muito a esfera criminal. Mesmo que o Ministério Público venha a concluir que ninguém pode ser diretamente responsabilizado pela tragédia, nenhum decisor pode deixar de tirar ilações. A começar pela ministra da Administração Interna, a quem não bastam lágrimas de emoção. Porque há, na gestão da floresta e na proteção civil, demasiadas evidências do tanto que está por fazer. Da eterna reforma florestal, à prevenção ou aos meios de combate. Metade da frota aérea comprada há uma década para combater fogos está parada e a sua manutenção já custou cerca de 15 vezes mais do que se gasta anualmente na prevenção. O dispositivo de bombeiros segue um calendário que as condições atmosféricas tornam cada vez mais anacrónico. O sistema de comunicações SIRESP é outro investimento escandaloso de demasiados milhões para tantas falhas. Só para citar alguns dos exemplos.

Apurar e sobretudo assumir responsabilidades é um imperativo ético de quem serve a causa pública. Mas outro igualmente relevante é evitar a tragédia alheia para fazer politiquice. E que nenhum partido tenha memória curta. Nenhum partido que foi Governo nas últimas décadas pode isentar-se de responsabilidades pelo estado da floresta. E nenhum com assento no Parlamento pode esquecer-se de quantas comissões parlamentares já foram criadas sobre o tema. De quantas recomendações ficaram por cumprir. E por fiscalizar por parte de quem, politicamente, tem esse papel - mesmo estando na Oposição, ou nela por maioria de razão.

Com urgência. Para não somarmos tragédias à tragédia, deixando que elas se anulem umas às outras. Pedrógão Grande não precisa que se invoque o luto em vão. Precisa de respostas.

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* DIRETOR-EXECUTIVO

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